domingo, 17 de setembro de 2017

Confabulaçoes

                                                Confabulações
Quando eu vou comprar mamão escolho por afinidade, amor à primeira vista. Só tenho certeza da doçura comprando o Papaia, mas gosto também do Formosa que é o dobro do tamanho, que vou comendo aos poucos e tenho a sensação de que dura mais, mesmo equivalendo em peso, não sei.
Enfim;  no supermercado, diante daquele mar de frutas diversas vou até aos mamões verdes alaranjados da banca e fico por alguns momentos observando-os para ver qual deles quer ir comigo, qual está a fim de fazer parte do meu corpinho por algumas horas, saber dos meus segredos, dos meus amores e dores, ouvir minhas orações e até dar palpites nas minhas conversas e discussões com Otávio.
Fico em silencio, mesmo que esteja cantarolando alguma balada metódica ou alguma coisa meio religiosa eu paro e fico olhando para os mamões, observando suas reações com a minha presença, pois de repente eu sinto vindo das entranhas do fruto não proibido o apelo - eu quero ir contigo, eu vou, sou doce e macio e te darei a satisfação do prazer da gula por alguns momentos-
E lá vou eu carregando a criação Divina produzida em série pela mão do homem do campo, tão esquecido por aqueles que dependem dele todos os dias, enrolado numa manga de crochê macio.
Feliz vou para casa e o acomodo na fruteira entre outras frutas, porém ele é o majestoso, o maior entre todas as espécies do recipiente.
Passa ali adormecido mais alguns dias para amadurecer mais um pouquinho já que as suas cores estavam mais para o verde do que para o alaranjado e assim provavelmente ainda estava mais firme do que macio para ser comido ao ponto.
Finalmente numa manhã de um dia nublado, observando a fruteira me dou conta que ele chegou ao estágio perfeito para ser comido. Pego-o nas mãos e o levo para um banho com detergente e esponja macia, primeiro o lado verde (da esponja) e depois o amarelo, mais macio. Enxugo-o com delicadeza e expresso o meu amor por ele dando-lhe um beijo e lhe agradecendo o prazer que ele estava me proporcionando ao degustá-lo sendo feliz, pois o estava levando para dentro de mim, meu eu mais profundo, e por algumas horas seríamos um só. Puro prazer...
É muito amor envolvido.


Isso se chama solidão.

quinta-feira, 14 de setembro de 2017

Ouvido, para que te quero

                               Ouvido, para que te quero?
Nas minhas observações nesses últimos tempos tenho notado o tanto de ansiedade que envolve a maioria das pessoas e isso em todas as faixas etárias..
As pessoas têm necessidade de falar o tempo todo, até fazem perguntas, mas não querem saber as respostas e o que realmente temos a dizer sobre o assunto perguntado na verdade não lhes interessa.
Essas pessoas só querem ter assuntos para falar, falar e falar...
Há uma aceleração mental disseminada ao meu redor, ou estou entrando "em marcha lenta" ou em "vôo cruzeiro"? Não sei teria que me olhar e me ouvir de fora talvez esteja agindo do mesmo jeito...
Eu por minha vez quando me perguntam ou colocam um assunto ouço ameaço entabular uma frase, uma resposta ao colocado ou perguntado, e logo sou cortada com outra pergunta sobre outro assunto ou comentário que nada tem a ver com a pergunta feita, é só a mudança de assunto mesmo...
Com isso hoje em dia falo bem menos por absoluta falta de chance na maioria das vezes. Falo muito menos, o que deve ser muito melhor para todos.
Mas como o meu cérebro continua na mesma velocidade que sempre trabalhou fico me perguntando:
O que está havendo?
Parece que hoje em dia todos sabem de tudo e detêm a verdade como sua propriedade absoluta não se importando com as outras facetas que outros possam apresentar...
Daí depois de conversar com minhas pantufas chego a triste conclusão para que conversar? Ninguém quer trocar idéias, só querem colocar as suas e nem por um momento avaliar outras opiniões... triste isso, quando não há troca não há crescimento.
Então fico ainda pensando, será que a minha opinião sobre as coisas, o mundo e o que anda por aí interessa mesmo a alguém? O mundo está muito polêmico, todo pensamento e toda colocação precisa estar politicamente correto, não se pode mais ser maliciosa no comentário, fazer uma piada boba em cima de um assunto que logo será execrado por uma multidão de pessoas que nem te conhecem e já prejulgam  e condenam só por uma frase inconsequente ou mal colocada ou que tenha apenas a finalidade irreverente de fazer rir.
E assim continuando a confabular com minhas gavetas da alma fiquei pensando que com o tempo a Sábia Natureza vai eliminando aquilo que não fazemos não mais uso e que não precisamos para evoluir, por conta das dietas e dos alimentos processados, leia-se órgãos do corpo físico, tipo dentes, por exemplo. E isso me remeteu à figura típica dos "ET's", cabeça grande e triangular para comportar um cérebro pensante, olhos grandes para melhor observar e a boca... a... a boca é um "botão", eles já não precisam usar tanto a boca e provavelmente usam da telepatia para se comunicarem.
Mas que ninguém nos ouça, eles são feios pra caramba, mas a lição que fica é;
Pensar muito, olhar e observar tudo e falar o mínimo necessário.                                               Mas que são feios são, né não?

sábado, 2 de setembro de 2017

O Parente

                                                              O Parente
Outro dia passeávamos logo cedo pela orla, respirando o ar puro da manhã, pois a natureza nos havia brindado com um lindo e maravilhoso dia de sol, sem uma nuvem no céu brilhante e sem vento o que me tira totalmente a vontade de caminhar ao ar livre.
Lá pelas tantas percebi que o Otávio ficou para traz parando para ler um cartaz colado no poste de iluminação. Voltei cheia de curiosidade para ver o que havia de tão interessante escrito num dos muito restos de papel colados que a bem da verdade só enfeiam o lindo o lindo espaço de lazer à beira mar.
Quando cheguei perto percebi que a criatura peluda de olhos amarelos já havia sido picada pelo bichinho da curiosidade.
Enquanto eu tentava ler alguma coisa ele já me arrastava pela mão para voltarmos ao caminho de volta para casa e antes que ele desse um ataque de birra como fazem as crianças mal educadas voltei ou melhor voltamos correndo.
Ao chegarmos em casa ele correu na frente e entrou no banheiro para tomar banho, enquanto eu fiquei separando a roupa para sair com ele, sabe-se Deus para onde.
Sim, pelo comportamento dele vi que viria "cosa" pela frente.
Quando chegou a minha vez de entrar no chuveiro ele já me avisou aos gritos que eu não demorasse por conta de ele ir sozinho e acabou que foi mesmo. Aonde? Sei lá! Nunca sei o que ele pretende fazer e do jeito que é mandão e machista nem me dá satisfação, apenas vai. E no poste haviam muitos cartazes, não sei qual ele se interessou...
As horas se passaram e eu já estava ficando preocupada com a demora dele, então resolvi fazer o almoço. Quando tudo estava quase pronto ele adentrou pela sala todo esbaforido e descabelado...
- O que foi que houve? Parece um furacão! - Lhe perguntei de um fôlego só.
- Acabei de saber o que eu já desconfiava...
- E o que foi que você desconfiava que acabou de saber, criatura "dedeus"?
- Sabe o que encontrei lá no parque à beira mar? Um anúncio de uma vidente que descobre nossas vidas passadas, peguei o endereço e fui fazer uma consulta e se segure para não cair!
Falava com a voz mais esganiçada do que de costume e eu olhando para ele com a maior abertura de meus olhos para não perder nada.
- Eu sou um descendente direto do gato do Faraó Ramsés III! Pura linhagem como sempre soube, não é o máximo? Eu sempre tive certeza que eu sou de nobre linhagem.
Por um momento fiquei em silêncio olhando aqueles olhos amarelos e respondi;
- Bem... eu penso que sua linhagem degenerou um pouco comparando com as Imagens de Osíris, ou da Deusa Felina Egípcio Bastet, você tem um pouco mais de pêlos, olhos amarelos, nariz achatado... sei não...
Bom, estamos de relações cortadas há três dias depois dessa conversa e ele está recolhido aos seus aposentos e não atende ninguém desde então.
Fazer o que, né?



sexta-feira, 11 de agosto de 2017

O Cheiro dos Deuses, Como Será?


                                        O CHEIRO DOS DEUSES, COMO SERÁ? 

Outro dia indo de ônibus para o centro da cidade não pude deixar de ouvir a conversa de duas mulheres que tranquilamente falavam dos atos litúrgicos da igreja delas em alto e bom som para quem quisesse ouvir, e eu como boa ouvinte de histórias pitorescas fiquei ligada no assunto que era a igreja delas e sobretudo o pastor Paulo e suas pregações maravilhosas. Conversa vai, conversa vem uma delas falou para a outra que a mãe do pastor costumava sentar em frente a ela (ou ela atrás da mãe não lembro agora) e sempre se cumprimentavam.
Ela falou isso como se a ditosa mãe fosse a primeira dama da Igreja. Uma honra sentar ao lado e conviver com tal criatura tão de perto. 
Naquele mesmo dia horas depois, por coincidência ou destino,  eu, elas e uma terceira que depois vim a saber ser a mãe do pastor Paulo, nos encontramos na seção de perfumaria das Lojas Americanas.
Nos olhamos naturalmente e eu as reconheci do ônibus e observei que a mãe do pastor Paulo levava um desodorante nas mãos e ao vê-las se dirigiu a mulher do ônibus que sentava perto dela na igreja. Toda sorridente se aproximou mostrando o desodorante e lhe perguntou se aquele produto era bom, pois ela iria levar para o filho, o Pastor Paulo.
E para a minha surpresa, a mulher do ônibus espantadíssima perguntou para a "primeira mãe" da igreja dela: 
- Mas o pastor Paulo usa desodorante, ele tem cheiro em baixo do braço? 
Então a "primeira mãe", não só confirmou, mas ainda saiu pela loja contando-lhe alegremente toda a vida do "santo filho" desde que era pequeno quando já sonhava em ser pastor e provavelmente ainda não tinha cheiro debaixo do braço.    ôô¬ 

Que me desculpem parecer que estou debochando do religioso ou das religiosas, longe disso, o que estou na realidade é mostrando a ingenuidade de certas pessoas que só porque a criatura prega a Palavra de Deus já é santo em vida seja lá que religião professe...

quinta-feira, 13 de julho de 2017

Lembranças Não Gratas

                                       Lembranças Não Gratas
Logo que o despertador tocou antes das seis horas e abri os olhos, me deparei com Otávio e seus grandes olhos amarelos de pé parado ao meu lado.
Eu não me lembrava de ter colocado o relógio para despertar...
O silêncio era significativo naquele olhar fixo em mim e parecendo não muito amistoso, quase enigmático.
Quando o meu cérebro pegou no tranco e pude concatenar algumas idéias me dei conta que talvez tivesse novamente esquecido algo que combinamos, para variar...
E agora? O que será que me esqueci dessa vez?
Enquanto pensava fui afastando as cobertas, me levantando e me dirigindo ao banheiro para tomar um banho e acordar de vez. Em seguida voltei para o quarto vestida com meu roupão de estampa "camuflado", para arrumar a cama enquanto tentava lembrar para onde combinamos ir, pois disso dependia a escolha do que vestir.
Olhei para ele que olhava pela janela aberta com olhar perdido no horizonte e notei que se vestia com uniforme completo da Seleção Brasileira de Futebol com a chuteira rosa e tudo. Isso me deixava cada vez mais encafifada.
Continuei sem entender bulhufas do seu silencio, a roupa escolhida para aquele dia e  sem entender nada mesmo me dirigi para a cozinha, ver se tomando café a memória voltava.
Ao chegar encontrei tudo pronto à minha espera... pensei: aí tem coisa e bem esquisita, pensei com as minhas pantufas de patas de tigre.
Eu me sentei em silêncio, até porque nem sabia por onde começar e fui me servindo enquanto ele se sentava na minha frente do outro lado da mesa, foi ai que me dei conta do seu olhar triste e úmido, olheiras fundas de quem nem dormiu direito.
Quebrei finalmente aquele silêncio sepulcral e lhe perguntei com todas as letras, qual era a do dia e ele me respondeu perguntando como eu podia ser assim tão desnaturada que não recordava um dia como aquele.
Sinceramente não, não me lembrava de nada lhe respondi, mesmo lhe ocultando que desconhecia em que dia e mês estávamos, após vasculhar minhas gavetas mentais, enquanto me servia de mais uma torrada com geleia.
E ele então, após engolir em seco me falou com a voz embargada que era o dia da triste lembrança em que o Brasil perdeu para a Alemanha de 7X1.

Só não voltei para dormir porque já havia arrumado a cama...

terça-feira, 27 de junho de 2017

Uma Relação Febril.

                                                     Uma Relação Febril
Lá pelos primeiros dias da primeira quinzena de maio deste ano de 2017, estava eu viajando em casa de parentes, quando o conheci.
De cara quase me derrubou, acelerou meu coração, tirou o meu apetite e em alguns momentos bambeou minhas pernas, fiquei com as mãos frias e suores pelo corpo, por uns momentos entonteci.
Sim bem forte, acho que mais dos que eu já conheci.
Nos primeiros dias até que dominei a situação, tomamos chá juntos, resolvemos os problemas que geram dores de cabeça e por que não dizer do corpo todo?!
Pois é desde esse dia, ou melhor essa noite morna em que tomávamos vinho enquanto degustávamos um churrasco conversando, rindo e ouvindo músicas maravilhosas, que senti um gelo percorrer minhas costas anunciando o frio do outono que se apresentava às primeiras horas do anoitecer. Foi ai, neste momento preciso que tudo começou, me lembro bem, e desde então ele não me largou mais, sempre me causando emoções intensas e muitas vezes até desconforto pela sua persistência e intensidade.
Agora mesmo querendo e precisando resolver coisas e sair,  não posso, pois conseguiu me tirar o meio de comunicação que mais uso que é a voz. Estou sem voz, o que fazer oh céus!!!!
Por incrível que pareça ele ainda me causa arrepios e alguma fraqueza em alguns momentos. Sim, ele até já se afastou e quase chegamos a terminar há duas semanas atrás, mais em menos de 24horas estava de volta firme e forte revelando todo seu amor pela minha pessoa.
Agora me digam, mesmo não podendo e sendo contra a lei de Deus e dos homens se não preciso matá-lo para extinguir qualquer possibilidade de procriação, multiplicação e regeneração?
Alguém sabe como exterminar o vírus maldito dessa gripe que não me larga?
Aceito sugestões e não venham me dizer que ele é "filhodedeus"...
Também não adianta justificar me dizendo que ele se apaixonou por mim e pelo meu corpinho macio, eu não quero essa relação!!!!
Me erra, cara!


domingo, 18 de junho de 2017

Santo Bolo.

                                                       Santo Bolo
No dia 13 de junho ia eu pela rua distraída em meus pensamentos insanos quando reparei num entra e sai animado da Igreja de Santo Antônio.
Curiosa e por não ter nada mais interessante a fazer por aquelas horas frescas de outono, resolvi entrar para ver o que acontecia, foi ai que me dei conta de que era o dia dele, do Santo padroeiro dos solitários, aqueles que não suportam a solidão ansiosos por alguém que troque e divida afetos íntimos, ou não, mas que tome o café juntos pela manhã discorra narrativas de filmes e livros durante a tarde, comentem as notícias do dia e lhe dê um beijo de boa noite, alem dos que anseiam simplesmente por um "cobertor de orelha" para os dias frios, o que não querem é ficar sozinhos, eles ou elas.
Como dizia, levada pela curiosidade entrei junto de duas senhoras que trocavam cochichos e risadinhas discretas à minha frente quando fui parada logo à poucos passos da entrada por um gentil cavalheiro com um prato plástico à minha frente onde uma fatia de bolo com cobertura branca que mais parecia de casamento, repousava ao lado de um também garfo plástico transparente. Insistiu em me estender o pratinho me dizendo que se eu encontrasse o Santinho no meu pedaço de bolo nos casaríamos antes do Natal naquele ano ainda. Detalhe: eu já tinha ouvido falar que o tal santinho de metal que colocavam dentro do bolo (mais de mil em algumas Igrejas) já havia causado pelos mais afoitos que o mastigavam sem nenhum cuidado e o engoliram, muitas contrariedades e até boletins de ocorrência querendo processar o Santo, por dentes quebrados e cirurgias de desobstrução das vias digestivas ou respiratórias. Assim, temerosa de algum contratempo, pois já havia me arrependido de ter me deixado levar pela curiosidade e entrado, tentava desviar do insistente homem que com determinação me estendia o pedaço de bolo.  Fui desviando das pessoas e tentando fugir da criatura e até que fui me encaminhando para um canto num vão de uma coluna com ele persistente ao meu lado.
O burburinho continuava ao nosso redor com a distribuição do bolo, dos pãezinhos bentos, além de santinhos de papel com orações escritas atrás.
Quando voltei a olhar para o meu interlocutor que permanecia carregando nas mãos o pedaço de bolo e repetiu a frase que casaríamos até o final do ano caso eu encontrasse no bolo o santinho e ainda acrescentou: se você encontrar a aliança caso em menos tempo ainda. Assustada tentei recuar para trás esquecida de que a Igreja estava cada vez mais lotada de gente.
Olhei para o enorme Santo Antônio que ficava no Centro da nave e eu juro que ele piscou para mim.
Continuei tirando meu rosto da direção do bolo até que me ocorreu perguntar se aquela era uma nova modalidade de arrumar namoro e ele me respondeu que "não tínhamos tempo mais para rapapés de antigamente como namorar, noivar de aliança e casar".                                      Me chamou de velha, o desgraçado, e o pior é que nem liguei porque era verdade, mas ele era do mesmo século que eu com certeza!
Porém olhando um pouco melhor até que ele era muito charmoso e apessoado, mas por que eu?
E o garfo com um pedaço de bolo maior que ele se equilibrava na direção da minha boca novamente. Olhei de novo para o Santo lá em cima e ele piscou de novo, cheguei a acreditar que era um mecanismo consolador de esperançosas pessoas solteiras a fim de alguém, o que não era o meu caso, não naquele momento e nem naquelas circunstâncias.
Finalmente quando abri a boca para dizer um taxativo "não, não quero bolo!" Já era tarde, ele me enfiou goela a baixo sem mesmo fazer "aviãozinho" o maldito pedaço do bolo.
Mastiguei com o maior cuidado pensando nos meus poucos e bem cuidados dentes verdadeiros e felizmente nada tinha naquele pedaço. Oh, gloria!
Realmente decepcionado ele queria que eu comesse o outro pedaço que sobrou no pratinho, mas rapidamente confiando no Santo que piscava eu lhe disse que ele mesmo comesse e que se tivesse um santinho ou aliança eu casaria com ele até o final do ano.
Me dei conta que a louca do bolo era eu!!!
Na hora ele ficou todo animado e enfiou tudo na boca de uma só vez e mastigou com fé e louvor a doçura como se fosse um pedaço de picanha "ao ponto". Quando ele parou estremeci por um momento e olhei para o Santo que piscou de novo e jurei que iria investigar aquilo no dia seguinte, mas olhando a decepção do homem vi que não havia nada no pedaço de bolo, ou ele engoliu na agonia e ansiedade... Pois e agora, como saber?
Sai dali me esquivando dos que entravam animados imaginando que o cara tenha ido pegar outro bolo para tentar de novo com uma próxima desavisada. 
Enquanto saia olhei de novo o Santo que continuava piscando(?)
Pisquei pra ele, é claro!

Cada uma...

domingo, 4 de junho de 2017

São João

                                                        São João 
Hoje, quando acordei logo cedo dei de cara com Otávio sentado no sofá da sala tendo ao lado uma mala de viagem.
- O que houve?
Foi o que lhe perguntei sem conter o meu espanto, pois quando fui dormir nada me foi falado de viagem nenhuma.
Ele só apontou a mesa posta, e muito bem posta de café da manhã e só ai me dei conta do cheiro delicioso de café que saia da cafeteira ligada.
É claro que estranhei também tanta gentileza logo cedo e comentei com as minhas pantufas; "lá vem coisa."
Com total domínio da situação ele fez sinal para que eu sentasse e tomasse o meu café enquanto murmurava entre dentes; "depois explico."
Nessa hora as fatias de pão da torradeira pularam me causando um leve susto e me trazendo de volta à realidade.
A cada momento eu ficava mais intrigada, pois agora por exemplo ele me perguntava se eu queria ovos mexidos com queijo ou sem queijo.
Realmente cada dia é um susto dividir o mesmo teto com Otávio.                                                     Por mais que eu lhe fizesse perguntas, ele como uma esfinge, apenas me olhava do outro lado da mesa com seus enigmáticos olhos amarelos que mudavam conforme o seu estado de humor. Às vezes autoritário, outras muito doce como agora, o que me deixava mais intrigada ainda, mas boa parte do tempo olhava tudo com desdém ou desprezo pela ignorância humana. Mas quando ele entrava nessa de hoje;  cheio de autoridade, e também cheio de doçura eu nem cogitava de lhe desobedecer, pois tenho juízo.
Após o café enquanto eu arrumava a cozinha ele me disse que eu fosse mais rápido com as coisas porque eu precisava arrumar uma mala para viagem com roupas de verão para ficar um mês todo fora.
Ai é que estremeci da cabeça aos pés, mas quando ia lhe perguntar ele me cortou e disse que eu acelerasse, pois já estávamos muito atrasados.
Deitei a mala aberta sobre a cama e coloquei lá dentro sei lá o quê, pois não conseguia saber para onde iríamos. Logo que acabei, corri tomar banho enquanto ele só acompanhava com o olhar fuzilante e olhando para o relógio o apontava me mostrando a urgência.
 Eu só tremia diante de tanto poder. Debaixo do chuveiro consegui balbuciar uma prece ao universo, pedindo para que a criatura não tivesse enlouquecido de vez.
Quarenta e cinco minutos depois um Taxi nos desembarcava em frente o saguão do Aeroporto. Sem nada mais me dizer correu na frente para despachar as malas e eu correndo atrás como a louca da viagem. Só por um breve momento olhou para trás onde eu me encontrava e me avisou que já haviam chamado para o embarque e realmente fomos os últimos a embarcar.
Minutos depois quando o avião ainda taxiava na pista para levantar vôo perguntei se pelo menos agora eu poderia ser informada do nosso destino.
Ele apenas e tranquilamente retirou dos olhos a máscara de dormir e me disse que estávamos voando para a Paraíba para as festas de São João que duram o mês todo e ele pretendia só voltar no dia 29. Queria se arrebentar de dançar forró.
E sem mais nada a dizer voltou a colocar a máscara de dormir ignorando as manobras de decolagem da aeronave e a minha pessoa que ainda está de boca aberta...

Bons festejos juninos para todos!!!

sexta-feira, 26 de maio de 2017

Ironman

                       Ironman
Otávio passou a semana "maquinando" alguma coisa mas não quis me dizer. Só me olhava de longe sem me dizer nada.
Ficava horas no computador fazendo pesquisa de materiais nobres e leves como Antimônio, fibra de carbono etc.
Dia seguinte recebeu pelo Correio vários pacotes misteriosos, de vários tamanhos, o que me deixou cada vez mais intrigada.
Mesmo eu perguntando "qual era a do momento", ele apenas me dirigiu seu olhar amarelo de desprezo e sem me dizer nada se trancou em seus aposentos.
É claro que fiquei com medo daqueles olhos amarelos, oras sedutores ora emitindo dardos de sentimento não muito amistosos que carregam uma personalidade inquieta e às vezes perigosa.         Cheguei a entrar em pânico por alguns momentos imaginando se ele não estaria com intenção de construir uma bomba e encomendou os ingredientes pela internet... Será? E por que não? Otávio é imprevisível!
Consegui mais tarde ver pela porta que deixou entre aberta, quando retirava dos pacotes coisas bem diversas como uma linda bicicleta de fibra de carbono, ou Bike, como são chamadas agora, de marca estrangeira e por mim desconhecida. Noutra caixa retirou uma roupa de neupreme e uma toca bem colorida além de um par de óculos para natação,noutra caixa um par de tênis de corrida e um traje completo para pedalar com mais um par de óculos que mais parecia olhos de mosca...
Foi ai que deu o estalo, liguei os pontos e juntando as peças do quebra cabeças me lembrei que neste final de semana teremos em Florianópolis mais uma edição do Ironman onde triatletas de todas as partes do mundo vêm disputar esses esportes; 3,8 quilômetros de natação, 18,2 de Bike e 42,2 de corrida,  como não podia deixar de ser o Otávio se inscreveu sem eu saber como sempre costuma fazer. Ele adora surpresas e vivo levando susto, sem falar que não fazia a menor idéia que Otávio soubesse de que se tratava tal evento, mas meia hora antes de sair para a primeira prova ele me esclareceu aos gritos, como sempre, que há muitos anos quando era um jovem rapaz, saído da puberdade havia ganho muitas medalhas no atletismo, inclusive no Ironman.
Dai eu ingenuamente até, argumentei que justamente por ele não ser mais jovem e não tinha mais idade para essas coisas é que ele não devia participar, até sugeri esportes mais leves e condizentes como Dominó e Truco.
Naquela hora ele me fulminou com o olhar e me perguntou sem meias palavras se eu o estava chamando de "velho" no que eu retruquei; longe de mim pensar tal coisa de sua jovem pessoa!
Foi nesta hora que ele adentrou novamente nos seus aposentos e bateu a porta não sem antes me dizer em alto e bom som que eu era um "estraga prazer".
Realmente naquela hora achei que exagerei na minha sinceridade tocando no que ele mais teme: a velhice.
Sentei na minha escrivaninha e escrevi um bilhete sincero pedindo mil desculpas pelas minhas duras palavras e passei o bilhete por baixo da porta.
Dai fiquei matutando o que fazer, pois se conheço bem a rebelde criatura iria se enfiar nos lençóis até segunda feira quando tudo estivesse acabado. Sem nada mais poder fazer resolvi sair de casa constrangida com o nosso "entrevero" e resolvi ir ao cinema, e acabei ficando lá pelo shopping desligada de tudo por horas.
Lá pelas tantas resolvi comer algo e me dirigi para a praça de alimentação. Já era noite e resolvi comer por lá mesmo antes de voltar para casa, foi quando percebi um tumulto, uma algazarra.     Era um grupo grande de alegres pessoas que festejavam alguma coisa. Me aproximei para ver melhor e saber do que se tratava e me deparei com Otávio bem no centro das pessoas, com três medalhas penduradas no pescoço festejando a sua Vitória...
É mole?



domingo, 21 de maio de 2017

Em tempos de Gripes e Resfriados..

                                             Em Tempos de Gripes e Resfriados
Todo ano, mais especificamente no mês de Abril, começa a campanha de vacinação nos velhos.
Como no início de todas há uma resistência do pessoal da "melhor idade", os "entendidos" vêm a público dizer que a vacina não é feita com vírus vivos e sim com vírus mortos extremamente falecidos.
Assim, todos os anos eu me vacino na primeira semana da Campanha, pois tenho por hábito acreditar nas pessoas até que me provem o contrário, e vou lá obedientemente e me posiciono para o ataque da sorridente profissional que não entendo porque prefere a minha parte traseira inferior à lateral superior.
Feito isso, saio feliz pensando; pronto; estou imunizada de gripe para mais um ano. SQN.         Ledo engano, passam-se três dias e todos os vírus ressuscitam em corpo&alma e tomam posse do meu corpo de setenta e alguns meses que já está de saco cheio desse carnaval anual. 
Talvez tenha conseguido só no terceiro ano passar sem o desconforto e nunca mais.
Indignada resolvi saber diretamente com os invasores o porque dessa farra, mas sem me darem nenhuma importância apenas me enviaram um vídeo de forma anônima para não se comprometerem que explica tudo, como funciona a coisa.

Na assembléia anual de Vírus e Bactérias a discussão era febril e generalizada, tanto que a Bactéria mais antiga, mais radical e resistente é que presidia os trabalhos e precisou tocar a sinetinha de quinze em quinze minutos de forma homeopática para dominar a sessão e serenar os ânimos.
A falação transcorria de forma febril, convulsionada e cada vez mais acalorada e intensa. 
Cada um querendo defender suas posições, principalmente os modificados e as transgênicos que estendiam relatórios enormes de sucessos em todo o mundo.
O Vírus da Vaca-louca estava em surto literal e estendia um cronograma de ataque em massa para as próximas horas...
Alguns preferiam ir direto aos brônquios, enquanto outros se espalhariam pelos pulmões.
Um outro grupo menos comum, mas não menos importante (eles se achavam) ia direto ao trato digestivo e intestinal alegando a vertigem de escorregar como um tobogã entrando e saindo do "ambiente" muitas vezes enquanto se divertiam...
Outro grupo mais chegado à belicosidade escolheu a parte da articulação preferindo um ambiente mais hostil e de atrito constante assim fariam doer o corpo inteiro sem dó e nem piedade.
Mas a cúpula mesmo, a dos encarregados da Assembléia que era composta em sua maioria de vírus e bactérias internacionais e se achavam superiores por isso, iam direto para o sangue, o sistema linfático, para deixar o cliente acabado causando febre e suores frios. 
Ficavam ali alojados no Baço jogando cartas com os Glóbulos Brancos para ver quem era mais forte e o mais inteligente para dominar a situação. 
Já entravam com tudo, jogavam sujo se precisassem e geralmente atacavam pelos flancos para enfraquecer mesmo.
Um horror!
Os que preferiram tomar o cérebro e causar dores de cabeça intensas dividiriam as atividades com os que preferiam tomar a garganta, a laringe e os ouvidos.
Assim dentro da estratégia, logo que invadissem, os corpos estariam sob o domínio deles em poucos minutos, sem falar que os vírus mortos das vacinas serias reanimados e voltariam a servir em pouco tempo.

Batendo vigorosamente na mesa requerendo a atenção de todos a Bactéria-Mor agradeceu à presença em massa e a boa vontade e empenho de todos. Agradeceu às Farmácias e Laboratórios pelo patrocínio e completaria lembrando que estes trabalhos faziam parte dos planos presidenciais e políticos de dizimar os velhos que só faziam peso e consumiam boa parte do dinheiro arrecadado para aposentadorias.                
Quanto menos aposentados para receber esse dinheiro mais desviariam para outros interesses.
Em seguida todos aplaudiram e o vídeo se encerra aqui...

Coff...coff...coff...



domingo, 23 de abril de 2017

O Dia do Cisne

                                                          O Dia do Cisne
Hoje quando acordei as 5 horas da manhã dei de cara com Otávio pronto e paramentado aos pés da minha cama com cara de poucos amigos.
Antes que eu lhe desejasse bom dia ele me lembrou aos gritos que conforme o combinado há vários dias, hoje nesse horário já era para estarmos à caminho da Lagoa.
É que esta semana ele cismou e comprou um cisne-pedalinho para pedalar nas águas mansas da musa da nossa ilha.
Claro que ao som de uma trombeta dessas pulei da cama correndo e fui despindo o meu pijama personalizado de Mulher-Maravilha em direção ao chuveiro para acabar de acordar.
Ao atravessar a sala em direção à cozinha para ligar a cafeteira vi que Otávio esfregava vigorosamente a pomada para dores musculares nas pernas enquanto mastigava uma banana para evitar as câimbras, prevenindo o exercício de hoje que seria pesado.
Da sala, aos gritos, ele parecendo um sargento em quartel continuava a me dar ordens e quem sou eu para não obedecer...

Reclamava a todo momento a minha demora, mas como eu não sou ninguém enquanto não tomo meu café e nem começo o meu dia sem a dose de cafeína continuei na minha.
E ele continuou falando; "que café é esse que não acaba nunca, até parece o café da manhã do Palácio da Alvorada?!"
Foi ai que ele parou arregalou mais ainda os olhos amarelos e se deu conta de que o lugar mais adequado para o café da manhã é justamente o Palácio da Alvorada pelo seu nome, entendeu?
E continuou filosofando enquanto eu tomava o meu café acordando lentamente.
"Com certeza o Palácio da Alvorada serve um café daqueles completos sem faltar os biscoitinhos "velhinha ajoelhada" também conhecido como "joelhinhos", muitos sonhos de todos os tamanhos e muitas frutas como bananas e abacaxis, tudo regado à chá de camomila para acalmar os aflitos", hahahaha riu sozinho e continuou no seu delírio.
Depois de muita falação e filologia, muito trabalho para colocar e transportar o enorme cisne (o bicho é enorme) na carroceria da caminhonete, procurando esquecer do cansaço saímos pela estrada a fora...
As 10 horas da manhã e mais um pouco conseguimos finalmente deitar a ave na água. Nessas alturas a platéia só aumentava no pequeno trapiche.
O Cisne parecia que ia levantar vôo tanto que se sacudia para se nivelar na água ondulada, sem falar nos barulhos estranhos que fazia por baixo com o atrito da água na estrutura de fibra sintética.
O Cisne impávido com olhar de "tô nem aí" sacudia na leve marola.
Otávio, nosso marinheiro  de travessias transatlânticas, de colete salva vidas de cor laranja e quepe de comandante, muito imponente e visivelmente emocionado finalmente adentrou à embarcação aquática com certa desenvoltura para a viagem inaugural.
Após umas quatro pedaladas para as manobras de desatracação ele estancou e gritando para mim acomodada ao seu lado; querendo saber onde eu havia largado a sua mochila, no que respondi que se a mochila não era minha não podia estar comigo.
Ele apenas me olhou de maneira fulminante que nem pisquei e desci tão atrapalhada da ave aquática artificial que quase mergulhei nas águas, isso só não aconteceu porque fui ajudada por algumas pessoas que apreciavam o desenrolar dos acontecimentos e sai correndo até a caminhonete pegando a mochila esquecida e reclamada pelo nosso comandante.
Ao voltar toda esbaforida reclamei do peso e até falei que depois desse dia não precisaria mais fazer exercício e musculação durante toda a semana.
Ele nem ligou para a minha reclamação e por um momento magoei...
Rapidamente abriu a mochila e retirou um Champanhe Dom Perignon 1953 e rapidamente sem dó e nem piedade deu "nos cornos" do belo cisne com cara de "não tô nem aí" e  decapitou a ave para espanto de todos os presentes que estavam extasiados com a novidade. Uma senhora chegou a cogitar de denunciar aos "Direitos e proteção dos animais", sendo lembrada pelo marido que aquilo era uma arremedo de ave, que nem botava ovo.
Não resisti e falei indignada como ele havia comprado um artigo tão inferior que não resistia nem a uma inauguração condizente com o momento?!
Mas ele foi logo explicando a mim e aos presentes que havia comprado a ave de segunda mão pela internet diretamente do proprietário de um Sitio em Atibaia. Ele me garantiu que tinha poucas pedaladas de uso. O dono queria até vender mais um que fazia par com este, mas como eu não quis ele me presenteou com o Champanhe para eu não desistir da compra.
Olhei para o relógio que já passava das 13 horas olhei para Otávio que cabisbaixo carregava nas costas a mochila e caminhava na direção da caminhonete.
Entrou em casa arrasado. Recolheu-se aos seus aposentos se meteu entre os lençóis me avisando que não estaria para ninguém até o próximo feriado. Nem para o dono do Sitio em Atibaia que prometeu ressarcir o prejuízo...

domingo, 16 de abril de 2017

O Vazio

                                                   O Vazio
O que escrever quando um vazio profundo faz eco no peito?
Quando a gente grita para o escuro interior e ele só faz aumentar o silêncio ao redor assegurando que estamos sós na multidão de ausências.
Subimos no mais alto espaço íngreme e gritamos para as estrelas que nos olham lacrimejantes e silenciam o sublime hino que cantam durante toda a noite fria enquanto a lua as ignora se escondendo atrás da montanha.
Guardo minha dor e desço para a beira do mar que suavemente se aproxima em pequenas saias de espuma.
Faço a mesma e pergunta:
-Tem alguém ai?
Por um momento o mar pára, talvez de susto, talvez por ter sido pego de surpresa e me responde:
- Depende...
- Depende?! Como assim, o que quer dizer com isso?
- Em princípio nunca estamos sós, somos uma plêiade de vidas experienciando viveres numa esfera azul que vaga em círculos ao redor de uma pequena estrela amarela que também se desloca pelo universo entre outros astros semelhantes...
-Não; estou falando de pessoas, seres humanos... estou só não dá para ver?
-Sim, pode ser, parece, sei lá...
- Estou indo e vindo, já procurei por todos os lugares e não vejo ninguém... todos foram embora... só ouço o vento e o teu marulhar entre as pedras.
- Sinto muito, como não posso sair daqui não posso te ajudar...
Snff....sniff... :(


domingo, 9 de abril de 2017

Triste Estatística de hoje em dia


                                              Triste Estatística de Hoje em Dia...
Amanheceu chovendo, mas assim que São Pedro deu uma trégua Otávio não quis nem saber, saiu para fazer os 20 km de corrida pela orla marítima como faz todos os dias desde os doze anos. Calçou os dois pares de tênis importado, vestiu a camisa amarela e saiu por ai.
Estava eu ainda esticando os lençóis e ouço a chave na porta, era ele que entrava indignado, injuriado, pois havia sido assaltado bem na esquina e levaram os tênis dele.
Ficou com tanta raiva da situação do País que não dá segurança a ninguém mais, que antes que eu me desse conta da real situação da vítima peluda ele se enfiou de volta entre os lençóis e me avisou com a voz embargada pelas lágrimas que não estaria para ninguém, nem para o delegado de plantão que prometeu pelo telefone encontrar seus tênis e devolver pessoalmente com as "consoladoras" palavras de que ele havia tido sorte de não levar uma bala ou uma facada. 
Tristes tempos modernos.
E foi assim que Otávio teve a triste experiência de passar a fazer parte das estatísticas da delegacia de Polícia.

Pois é; humor negro no domingo de Ramos ninguém merece, mas não podemos perder a fé e a Esperança de dias melhores e para isso precisamos manter Jesus Cristo vivo em nós todos os dias.
Aleluia!!!


quinta-feira, 30 de março de 2017

Qual é a de Deus?


                              Qual é a de Deus?
Muitas coisas na vida me fazem pensar.
Coisas que ouço em vídeos de palestras ou leio em toda parte e muitas ouço das pessoas ao vivo e em cores.
Agora a pouco me lembrava de um vídeo que falava das forças sexuais, onde falava que o sexo foi feito para a procriação e que nós mulheres nos resguardamos da gravidez para apenas usufruir do prazer, como assim, "nós mulheres"? E eles?
Daí que fiquei pensando aqui com meu zíper, que Deus ou o Universo, ou sei lá o que nos comanda, ou que nome tenha, nos botou numa armadilha.                                     Sim numa armadilha!
Ele deve ter muito senso de humor e deve ficar nos assistindo de longe, provavelmente às gargalhadas ao nos ver em apuros.
Tudo que há de bonito e bom no mundo, em nossa vida, tem cheiro bom, gosto bom e sensação boa, mas nada nos convém, senão muito parcimoniosamente.
Poderemos tudo, mas de forma frugal e quase imperceptível sob pena de sermos “castigados” pelas consequências, não por Ele! Que fique bem claro isso, ou seja: pela alergia ao perfume das flores ou de odores diversos. 
Alimentos por mais gostosos que sejam, por exemplo; também podem nos engordar, atacar o fígado, o estômago, ter diabetes ou pressão alta por conta do que comemos. E sexo então nem se fala; pois podemos nos contaminar, ter doenças de todo tipo ou gravidez indesejada.
Daí eu me pergunto: qual é a de Deus?

Gente, escrevi isso tudo, só para ver como nos deixamos levar pelos nossos instintos primitivos.
Imagino que ficaram agoniados e aflitos; 
"Como ela ousa falar assim com Deus ou Dele"?
É que assim como nós quando assistimos uma criança dizendo impropérios e insanidades, apenas rimos da "santa ignorância", Ele também apenas ri de mim, das minhas bobagens sem maldade.

Voltando e falando sério agora:
Falamos em melhora espiritual, evolução, mas não queremos abrir mão das sensações e dos prazeres do corpo. Sentimos tudo isso sim, mas precisamos ir aprendendo a usar com inteligência sublimando sem violentar-nos, pois tudo deve acontecer devagar, gradativamente, de verdade,  de forma consciente.
Deus sabe das nossas limitações, acho até que nos deu os sentimentos e as percepções sensoriais como o olfato, o tato, o paladar, a visão, o prazer de comer, de fazer sexo para ficar mais agradável a nossa caminhada evolutiva aqui na terra. Somos como os bebês que ainda levam à boca tudo o que pegam para despertar as sensações, o prazer e o desprazer.
Como vamos sublimar estas sensações se não a conhecermos?
Só tem valor o bem que fazemos quando decidimos não fazer mais aquilo que nos leva ao engano. "Se teu olho é causa de escândalo, arrancai-o e lançai-o ao fogo", já nos disse Jesus. Podemos ir nos abstendo sim, dos excessos, de coisas e prazeres que nos levam à promiscuidade e a situações menos sadias ou saudáveis aos poucos, mas com determinação e consciência, pois nada nos é proibido, mas nem tudo nos convém.
E chegará um momento que tudo isso ficará para trás na gaveta das experiências desnecessárias e por não precisarmos mais sentir os prazeres da matéria transformaremos nossas ações em atitudes de Amor, sublimando nossos sentimento em Amor Maior.
Aos poucos vamos nos sentindo despojados dessas necessidades do corpo relevando para as alturas nosso espírito, ainda como alma reencarnada.                       Como aquele que até fere o corpo para salvar uma vida, atender o semelhante numa necessidade, numa situação difícil e de risco se machuca, se mutila, morre no fogo ou na água para salvar o seu irmão em apuros por acreditar que este é o seu dever.   Quando conseguirmos nos despojar dos "prazeres da carne" para sublimar e transformar nossos atos em Amor, ai sim, teremos dado um pequeno passo para adiante à caminho da evolução.

Mas até lá a pergunta que não quer calar...


segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

Segunda feira de Carnaval

                                                    Segunda feira de Carnaval
Acordei pela manhã bem cedo, quando o sol enviou pela janela seus primeiros raios fazendo refletir o brilho das lantejoulas da minha fantasia que descansava sobre a cadeira.
Aos meus pés ronronando refestelado, Otávio soprava uns confetes sobreviventes da folia que teimavam e pairar sobre o seu nariz.
Arrastei meus chinelos de tigresa que combinam perfeitamente com o Baby doll da mesma estampa e me dirigi para ligar a cafeteira que me aguardava pronta desde a noite passada. Voltei para o quarto e Otávio continuava ronronando só que agora se espreguiçava inteiro como os gatos fazem gostosamente.
Entrei no Chuveiro e ia cantarolar "o teu cabelo não nega" mas me lembrei que agora é ofensivo cantar certas modinhas, me lembrei da "cabeleira do Zezé" e também desisti por que vai que o vizinho ouve e pensa que é provocação com ele, que é careca de pai e mãe!?
Dai entre uma ensaboada e outra me lembrei de cantar "Maria sapatão", ai mesmo foi que enchi a boca de água do chuveiro pensando; "deusmelivre" mexer em abelheiro logo cedo.
Resolvi então cantar Roberto Carlos e a música do Chuveiro, aquela que "o sabonete rola por teu corpo inteiro", dai acabei o banho que a água anda cara e rara para usar com tanta "Performance".
Vesti um abadá de outros carnavais botei um short esfiapado e um chapéu de palha e voltei à cozinha. Depois de um café, um suco, um pãozinho, meio papaia, granola, tapiocas doce e salgadas, um pedaço de pão de ló, uma fatia de queijo minas e "mais umas coisinhas" sai para a minha caminhada. 
Fui sozinha; o Otávio se negou a sair dos lençóis, pois havia pulado carnaval a noite toda e até me avisou que hoje não estaria para ninguém,  nem pro prefeito, nem para o governador e muito menos para a Faye Dunaway que nem sabe ler mais o que está escrito no papel e "causou" no Oscar. Aff...
Sai caminhando para voltar logo, antes que o sol descolasse a minha pele toda, e ainda lá na orla dei de cara com ninguém menos que Casey Affleck!!! 
Sim eu também fiquei pasma, mas ele nem parou só abanou a mão e continuou a corrida. 
Eu ainda dei parabéns pelo Oscar de melhor ator e ele abanou de volta, provavelmente para não ter de explicar mais uma vez o contratempo na entrega dos prêmios. Mas foi melhor assim a fama dele é de abusador...
Claro que voltei para casa em seguida, pois o sol já estava me fazendo mal pra cabeça.
Cheguei exausta, mas encontrei sobre a mesa um suco de laranja, acerola e gengibre com folhinhas de hortelã que em boa hora veio me refrescar e descansar.
Otávio já havia levantado e bordava lantejoulas com ar entediado... mas é sempre um cavalheiro...
Boa semana de Carnaval e modorra...

domingo, 12 de fevereiro de 2017

Saudade de Sentir Saudade


                                               Saudade de Sentir Saudade...
Hoje acordei com vontade de falar de saudade, não aquela dolorida, mas aquela de todos os tempos, aquela que nos remete à casa da nossa avó, ao cheiro de pão ou bolo saindo do forno, do picolé comprado na venda lá na esquina com a moedinha que ganhamos, do vestido novo, do sapato de verniz, com meia branca, que escorregava e acabou causando um tombo e o joelho ralado, de cantar na escola o Hino Nacional com a mão no peito, da prova em papel almaço e caneta (?), do lanche com doce (Mussi de banana ou goiaba), da volta para casa com os pés mergulhados na enxurrada do fim de tarde, do cheiro de sabão da gaveta da cozinha... Nossa!!!  Quantas lembranças de infância...
Mais à frente  a saudade das crianças voltando da escola feito andorinhas inquietas querendo todas contar as novidades ao mesmo tempo.
Saudade do cheiro de neném em casa, de ouvir o piano da vizinha tocando, da chuva no telhado e da gritaria feliz dos filhos jogando futebol na rua com os vizinhos embaixo do aguaceiro de verão.
Saudade do entra e sai de amigos e dos amigos dos filhos. Das risadas e das reclamações reivindicatórias de saídas e ou chegadas fora do combinado.
Saudades das  conversas que tínhamos durante as refeições e que geravam muitas polêmicas que eram resolvidas e comprovadas nos livros que viviam espalhados pela casa. Todos liam de tudo. Um dicionário fazia parte dos apetrechos de cozinha para tirar dúvidas. Muita saudade desse tempo.
Saudades dos muitos cachorros e tantos bichinhos que passaram pela nossa vida. Cada um com sua história assim como temos as nossas.
Saudades dos vizinhos amigos e dos amigos vizinhos. Lembranças boas de momentos únicos onde dividimos  algumas lágrimas e  muitas alegrias.
Saudade do tempo em que eu arrumava tempo para ajudar quem precisasse independente de tudo o que havia por fazer. Fazia de coração e ainda faço quando a oportunidade aparece só para ver novamente o sorriso voltar ao rosto triste e aflito. É uma sensação única.
Sinto saudade do tempo em que problema não era problema porque com fé em Deus sempre dei jeito e encontrei solução.
Saudade de ter saudade, pois o trem já vai perdendo a velocidade, chegando no fim da linha e a paisagem vai ficando escassa e nebulosa, os sons vão diminuindo aos nossos ouvidos e não demora o apito vai soar avisando a chegada da estação final. Vamos dar uma última olhada para o caminho percorrido e com um último suspiro chegaremos à conclusão que valeu a pena, valeu muito à pena toda a estrada e estações percorridas.


Bom domingo!

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

Domingo de Chuva

                                     Domingo de chuva.
E o domingo amanheceu chovendo, o que fazer no dia de hoje?
Era a dúvida de Agripino para aquele dia. Ir ao cinema? Passear no Shopping, comprar um livro novo já que o dessa semana acabou na sexta-feira, andar na chuva até molhar os ossos, sentido as bochechas geladas?
Pois é; as opções não são muito interessantes para quem trabalha como um camelo a semana toda, é solteiro e "já passou do meio dia". Fazer o quê para se distrair? Ir ao Shopping comprar outro livro e ir ao cinema era a opção do dia e de todas as semanas.
Lembrou de ligar para a amiga de trabalho, também solteira e também na mesma faixa de idade, a Adalgisa, mas lembrou que ela se comprometeu com a irmã de ficar com os sobrinhos para o casal viajar mais sossegado.
Parou na frente do espelho, molhou os dedos indicadores na língua e passou nas sobrancelhas que vivia arrumando e alisando e de um tempo para cá costumava arrancar os fios que nasciam fora do lugar. Parou para observar melhor e chegou a conclusão que de tanto arrancar estava com as sobrancelhas finas como as de boneca, apenas uns poucos fiapos.
Como não reparou que tirou fios demais, e agora?
Foi até a gaveta do banheiro e retirou um lápis preto que havia ganho de brinde quando comprou a pinça. -Acho que eles dão o lápis de brinde porque já sabem no que vai dar esse negócio de arrancar fios todos os dias.-
Voltou para o espelho mais uma vez e fez um risco perfeito, engrossando um pouco mais como convinha a um homem sério, assim ele pensava.
Dai foi fazer o outro risco mas não dava certo, saia torto, a sobrancelha da direita era torta por natureza. Então, deixou assim mesmo, uma apontava para cima e outra fazia o tipo acento circunflexo.- o que fazer ó Zeus!!!!-
Resolveu pentear uma franja aproveitando que o cabelo estava crescido no alto. No fundo andava pensando em amarrar os cabelos no alto da cabeça, num rabicho com andavam usando os modelos de revistas e os artistas da televisão, parecia os lutadores de sumô, mas o dele ainda não dava, estava curto ainda, mas dava uma boa franja.
Assim penteou tudo para frente para esconder as sobrancelhas e colocou por cima um par de óculos escuros de aros bem grandes. Como estava frio, vestiu um sobretudo e saiu para pegar um cineminha.
Quando chegou à rua uma ventania estava acontecendo e lá se foi o cabelo para cima descobrindo as sobrancelhas e os óculos ficaram respingados de garoa, assim teve que retirar e ficar segurando o cabelo com as mãos. Ainda bem que não trouxe o guarda-chuva, pensou. Não teria mãos para segurá-lo.
Entrou no metrô e percorreu os corredores de cabeça baixa e entrou na leva de passageiros e ficou de frente para a porta não querendo ser observado. Desceu na estação perto do Shopping e segurando a franja na testa se dirigiu para lá.
Subiu de elevador de costas para todos os demais que subiam com ele e virado para a parede foi até o último andar, o dos cinemas. quando a porta se abriu ele saiu feito uma flecha na direção do cinema. Comprou a entrada, ainda segurando a franja diante da bilheteira impassível, mas que ele era capaz de jurar que ela segurava o sorriso de deboche para a situação constrangedora dele.
Felizmente a sessão começou em seguida apagando todas as luzes. O filme contava a história de um cara não muito certo da cabeça, que roubava madeixas de cabelo e ele não gostou do que viu e voltou para casa muito arreliado. Pegou o Note book e escreveu para a empresa que não iria trabalhar por um motivo muito forte e especial, se quisessem descontar os dias que o fizessem, se quisessem despedi-lo que o fizessem mas o fato é que ele não iria trabalhar tão cedo. Na verdade  ele nem sabia mesmo quando poderia voltar ao trabalho, só quando as sobrancelhas crescessem e voltassem ao normal.
Abriu a pagina do tira-dúvidas e procurou tirar aquela que lhe causava aflição e leu desolado que, se a pessoa for jovem o pêlo demora uns 20 dias para aparecer, se for mais velha a pessoa, o caso dele, e se ao arrancar danificou o bulbo do pêlo, nunca mais nascerá.
Agripino se jogou desconsolado na cama e depois de alguns dias, durante a noite e de chapéu enterrado na cabeça mudou de cidade. Viveu mais de ano escondido só saindo a noite e todo disfarçado. Deixou os poucos e ralos cabelos crescerem, a barba praticamente ele não tinha mesmo e ficou um "barba-rala" que vivia infeliz no quartinho de pensão até o dia em que durante o jantar onde morava, depois de tomar um vinho barato, angustiado por demais se abriu para um outro morador da pensão. Conversa vai, conversa vem ele conseguiu contar para o homem a sua aflição, a sua vergonha; o caso das suas sobrancelhas.
O amigo então o convidou a ir até o seu quarto e sentou-o numa cadeira. Retirou do bolso uma navalha e enquanto Agripino dormitava de porre todo esparramado, o amigo lhe raspou as "maledetas" sobrancelhas com a perícia do barbeiro que era.
Quando acordou, Agripino estava com uma horrível dor de cabeça causada pela qualidade do vinho e foi direto para o chuveiro e só depois se olhou no espelho levando um grande susto.
Correu ao quarto do amigo que ainda dormia ao sabor do vinho também e sacudindo-o até acordá-lo e lhe perguntou o que ele havia feito?
- Como assim, o que eu fiz, não está vendo? Sumi com o seu problema. Ele não existe mais. Ninguém vai rir do que você não tem e agora me deixe dormir que hoje é minha folga.
Agripino voltou desolado para o seu quarto e examinado bem o que ele havia considerado um estrago completo. Penteou, puxou e amarrou o cabelo à moda Sumô e gostou do que viu no espelho. Saiu à rua todo fagueiro pensando;
Se tivesse conhecido aquela pessoa antes, não teria perdido o emprego e teria me livrado de tanto sofrimento, por que não pensei nisso antes? Agora sou um cara de estilo...
E saiu assobiando e chutando uma latinha que estava no chão...