sexta-feira, 12 de outubro de 2018

O Fã do Bob

                             O Fã do Bob
Otávio desde abril deste ano se tornou admirador do Bob Marley e passou a ouvir suas músicas e a dançar pela casa endoidecido.
Tanto dançou e cantou que seu pêlo começou a enroscar e fazer dred's, como os do Bob e seus admiradores; dred's são àqueles nós indesembaraçáveis que formam massas de cabelos impenteáveis.
Mesmo procurando desmanchar com os dedos enquanto fazia cafuné, já que ele odeia ser penteado, chegou uma hora que não dei mais conta e ele passou a carregar um casacão de lã de pêlo grosso horroroso, fora que a coceira vai se instalando cada vez mais.
Daí, esta semana, foi preciso passar umas horas no Pet para se deixar tosquiar como uma ovelha, o que o deixou injuriado por demais.
Voltou para casa mais parecendo filho de macaquinho; só sobrou a cabeça e o rabo com algum pêlo baixo, o restante desnudou a criaturinha totalmente.
Dai que o sobrinho do Xá da Pérsia injuriou-se de vez e me excomungou o que pôde. Recolheu-se aos aposentos e me afirmou que não estaria para ninguém até a semana do Natal, quando iria viajar para longe desses malditos pets que não respeitam nem a integridade de um ser de alta linhagem como ele colocando à mostra as suas partes íntimas como se fossem brincos e frutos à venda numa feira qualquer. Palavras dele.
Pegou seus CD's do Bob Marley e jogou tudo na lixeira como se a culpa fosse dele, não se deixar pentear.
Agora quando toca um Reggae no rádio ele corre trocar de estação.
Traumatizou de verdade. Ainda bem que o verão está chegando e o pêlo vai crescer rapidinho.
Que ele não me ouça, mas que ficou esquisito pacas, lá isso ficou...
Tadinho, que maldade...

sexta-feira, 14 de setembro de 2018

A Herança

                                        A Herança
Enquanto tomava mais uma xícara de café, na verdade já era a terceira da manhã, eu lia um Romance estirada no sofá da sala, e ouvia os espirros do Otávio lá no quarto que lia as manchetes do dia no seu Tablet, refestelado sobre as almofadas. Eram tantos os espirros que fiquei deveras preocupada.
Fui falar com ele que me disse que era por conta do cheiro do defumador. Me assustei; como defumador? Não tenho costume de acender incenso, mirra e congêneres para nada, mesmo que me garantam a fortuna, o afastamento do mau olhado,a ziquizira e maus fluídos. Não gosto da fumaça e nem comida defumada.
Foi aí que reparei que entrava um rolo de fumo, sem dó nem piedade pela janela do quarto do Otávio, e ele me garantiu que assim estava desde de manhã. Fechei a janela e voltei para o meu livro que estava cada vez mais interessante.
Pouco mais tarde, quando saía para ir ao mercado, encontrei a vizinha saindo também, toda trabalhada no roxo e dourado, de turbante e maquiada para uma festa à fantasia e perguntei discretamente sobre a defumação daquela manhã e ainda delicadamente insinuei a alergia do Otávio e me surpreendi com a explicação de que havia acabado de se mudar e precisava fazer uma limpeza geral no ambiente para dissipar todas as energias deletérias que nos prejudicam e impedem a circulação do amor e do dinheiro, sugando os mananciais eletromagnéticos enviados pela Lua em minguante para nos energizar de bons fluidos, sem falar na quantidade de gatos que moram no condomínio que atraem aquela palavra que ela não pronuncia nem sob pauladas.
Seja lá o que isso signifique, pois estou até agora segurando o meu queixo para não cair, já que a criatura me falou tudo isso de um fôlego só, enquanto me entregava um cartão de visita onde se identifica como "vidente", daquelas que traz seu amor ou o dinheiro de volta, mas o que é pior; parece que não gosta de gatos.
Azar o dela!
Mais tarde, voltei ao meu romance que estava bem na página onde eu iria descobrir quem era o pai da criança, e o interfone tocou. Contrariada fui atender e soube que era dos Correios, uma entrega especial.
Lá fui eu de pantufas e tudo para não perder tempo e voltar ao romance que estava eletrizante.
Joguei a carta sobre a mesa e nem fui ver de quem era e para quem era. Pois devia mas o romance...
Em seguida chega Otávio com cara de sono e vê a carta sobre a mesa. Abre o envelope enorme que trazia um Brasão da Embaixada da Pérsia e idioma desconhecido, mas dava para reconhecer o nome do Otávio.
Nervosamente ele abriu a carta e com ajuda de um tradutor  do computador descobriu que ele havia recebido uma herança legítima do Xá da Pérsia, o Xá Octhavianos Pérsius XIII, um parente afastado, aliás literalmente afastado.                       
A carta trazia o convite para retirá-la no Porto de Itajaí diante  de um comprovante de parentesco oficial.
Urrrú! Estou rico, estamos ricos!!! Gritava sem parar o celerado correndo de um lado para o outro pela casa enfumaçada.
De repente parou e perguntou: como vou arrumar um documento de herdeiro legítimo a essa hora? Nunca soube desse parente?!
Retruquei com cara de tédio que era só procurar no Google, imprimir e levar junto com a carteira de identidade, título de eleitor e carteira do Clube de esportes radicais. Tudo junto comprovaria a verdadeira identidade dele.
Enquanto ele procurava no computador os comprovantes eu coloquei duas mudas de roupas numa valise e fomos em direção ao Porto de Itajaí curiosíssimos para ver o tal objeto que veio de tão longe...
La chegando procuramos o Escritórios das Docas para desembaraçar o objeto na alfândega, quando fomos informados que era um Container inteiro!!!!!
Sim! Foi um choque saber disso, mas seja lá o que for, já me preocupei seriamente em me dar conta de que vindo das origens do Otávio eu deveria me por de joelhos e esperar o pior em preces.
Depois de horas de espera e manobras de vários guindastes retirando a "coisa" de um lado e colocando no outro finalmente fomos abrir para descobrir de que se tratava a herança vinda de tão longe.
Era a coleção completa dos mais exóticos incensos do mundo, comprados, mandados buscar nos lugares mais longínquos do mundo, recolhidos e guardados como verdadeiras jóias pelo parente do Otávio, o legítimo Xá da Pérsia, Octhavianos Pérsius XIII, que os guardou a vida toda desde que ganhou uma caixinha deles no sexto aniversário...

Vai um aí para afastar os maus espíritos?

quinta-feira, 30 de agosto de 2018

O sonho acabou de acabar


                               O Sonho acabou de acabar
Acordei cedo, como sempre, olhei para fora e assisti com admiração o nascer do dia, da aurora, do alvorecer e até fotografei, como faço sempre que a imagem pede a eternidade do momento.
Depois do banho tomei tranquila meu café, depois tomei outro e mais outro com a sensação de que faltava mais alguma coisa. Queria comer algo mais eu não sabia o que era.
Passeei pela casa em vão, tentando preencher o vazio que me tomava a alma, que sentia falta de algo que eu não definia.
Foi quando o locutor da rádio falou algo que me chamou a atenção; ele dizia que devemos correr atrás do nosso sonho. Sim, era isso! Correr atrás do nosso sonho, do meu sonho. Eu estava com uma vontade indecente de comer um sonho fofo recheado de goiabada coberto de açúcar de confeiteiro.
Não perdi tempo e fui pedir ao Otávio para ir até a padaria buscar um sonho fofo recheado de goiabada e coberto com açúcar de confeiteiro.
Levantando os olhos amarelos e entediados do jornal que ele lia no Tablet, redarguiu intrépido:
- Por que eu faria isso, se é você que está com vontade de comer um sonho fofo recheado de goiabada e coberto de açúcar de confeiteiro?
- Simplesmente porque estou com vontade de comer um sonho bem fofo, recheado de goiabada e coberto de açúcar de confeiteiro, mas não estou com vontade nenhuma de ir buscar na padaria, só por isso.
- E porque você acha que eu estou com vontade de ir até a padaria buscar um sonho fofo, recheado de goiabada, para você; se eu nem como sonho e nem faz parte da minha cadeia alimentar?! E vontade de sair daqui, tenho nenhuma.
- Tudo bem; já até perdi a vontade de comer um sonho fofo, recheado de goiabada e coberto de açúcar de confeiteiro ou qualquer coisa melada ou cheia de açúcar, e até acho bom, porque a "tiabete" não ia gostar nada desse meu desejoso deslize palatal adocicado que me assaltou no dia de hoje; mas não custava nada me fazer um favor, um agrado de vez em quando, faz parte da política da boa vizinhança servir para agradar, não esperar só ser servido.
- Ah é?  A preguiça agora argumenta bem, para se defender em? Sim senhora, admirei agora a sua auto defesa...
- Olha quem fala em preguiça alheia?! Fica ai de molho o dia todo, semanas inteiras hibernando como um urso, e eu que sou preguiçosa só porque pedi um favorzinho...
- Então se quer muito comer um sonho fofo, recheado de goiabada e coberto de açúcar de confeiteiro telefona para a padaria e pede para entregarem, se atualize; ninguém vai mais à padaria, mandam buscar os brioches.

- É da Padoca? Dá para entregar um sonho fofo recheado de goiabada e coberto com açúcar de confeiteiro?
- Senhora, só temos sonhos recheados de Açaí e coberto com açúcar mascavo...

Realmente o sonho acabou... sniff... sniff...
Já não se fazem mais sonhos como antigamente, recheados de goiabada, creme de gemas, doce de leite...

Açaí ninguém merece...

segunda-feira, 20 de agosto de 2018

Ônibus Fantasma


                                 Ônibus Fantasma
Ontem,domingo, amanheceu um lindo dia de sol, céu sem nuvens, temperatura por volta de 15º sem ventinho e nem ventão.
Acordei cedo, para um domingo, e cada vez que olhava pela janela e ouvia os passarinhos piando lá fora ficava tentada a sair e dar uma volta para usufruir da oportunidade que o Criador me proporcionava ao me dar vida e saúde, de desfrutar da Natureza.
Pois bem, tomei Café e banho e saí na direção do ponto de ônibus que fica logo depois da esquina da minha casa respirando profundamente o ar fresco da manhã de inverno, enquanto o sol me acariciava levemente a pele. Por ser domingo já tem menos ônibus circulando e ontem parecia que estavam em greve, pois lá fiquei por "horas" aguardando um veiculo qualquer que me levasse à passeio, poderia ser uma carruagem, uma carroça ou o carro do Batman, o que eu queria era sair um pouco de casa.
Estava quase desistindo quando apareceram dois só para me afrontar, mas tudo bem, eu estava em paz e nem xinguei os deuses do transporte por isso...
Levada ao Terminal Central, onde a maioria das empresas de ônibus oferecem linhas com roteiros diversos, procurei uma das plataformas e optei, sem pensar muito, por tomar o ônibus Circular "Volta ao Morro", mais precisamente a que sai pelo lado Norte. Tem outra linha que sai pelo lado Sul e se encontram em determinado ponto.
Para quem não mora aqui é bom explicar que esta linha contorna todo o morro que se destaca e é visível em grande parte da entrada da Ilha pelas pontes.
Pois bem, este percurso leva uns 45 minutos em transito livre, um pouco mais nos dias de semana, passando pela casa do Governador, pela UFSC e segue de volta ao terminal Central.
Dito isto, volto ao ônibus:
Ao entrar percebi que só haviam mais dois passageiros sentados em lados opostos, bem no final do corredor.
Deu no relógio 10.10h saímos da plataforma.
Eu sentada na frente da catraca, com total visão à minha frente, entre o motorista e o cobrador que iam conversando animados.
Depois de uma dez paradas de ônibus sem subir no ônibus nenhum passageiro, o cobrador se deu conta do inusitado e comentou com o motorista se ele conferiu a placa do itinerário, no que o motorista confirmou que sim, havia conferido; e continuaram percebendo que mesmo passando em paradas com pessoas aguardando ninguém dava sinal para pararem. Certa hora, já encafifado com a coisa, o motorista parou e foi conferir se estava tudo certo com o ônibus e nessas alturas achei que eu é que estava sonhando e me achando num ônibus esquisitamente fantasma.
Até que transcorrido bem mais da metade do percurso, uma daquelas pessoas lá de traz, deu sinal de parada e desceu, dois pontos depois a outra pessoa também desceu. Só ficamos o motorista, o cobrador e eu naquele ônibus estranhamente vazio, continuando a estranha viagem o que já causava riso nervoso em nós três. E o pior é que eu não pretendia descer em lugar nenhum, já que apenas queria passear. Costumo fazer isso quando estou chateada ou querendo sair, passear e ver gente.
 O motorista olhava para o cobrador e para mim pelo espelho e provavelmente os dois me olhavam intrigados. 
Quando já estávamos retornando, uns dois pontos de parada antes do Terminal Central, entraram dois jovens no ônibus "fantasma" que fez  misteriosamente todo o itinerário com apenas três passageiros de ida e três de retorno sendo que uma não paga e não desce em ponto nenhum, apenas passeia...


É isso, cada um se diverte como pode, eu faço dessas coisas... :)


quarta-feira, 15 de agosto de 2018

Gratidão, gratidão, gratidão...

                                  Gratidão, gratidão, gratidão.
Foi numa quarta feira, num longínquo 14 de agosto, com a lua em quarto minguante, dia de Santo Eusébio, bem no pôr do sol, mais precisamente as 17.35h, que cheguei neste mundo de Deus, provavelmente portando lápis, borracha e papel para anotar as minhas impressões sobre o evento. Infelizmente ainda não haviam inventado o celular senão eu teria registrado tudo com uma "Self" com a parteira, a mina mãe e meu pai, que sempre esteve presente em todos os partos dos filhos dando seu apoio.
Também não pude colocar as fotos do sol se pondo, fechando aquele dia inesquecível e marcante na minha vida.
Minha mãe como sempre deve ter falado o que sempre exclamou em alto e bom som: "ela é muito moderna", nunca entendi o que ela queria dizer com isso, pobre de mim, criatura que corre todo dia atrás do trem da vida. Já meu pai, tenho certeza, me fez um cafuné nas penugens de minha cabeça com os olhos rasos de lágrima de emoção. Sempre fazia isso.
Após as primeiras efusões de surpresa e alegria, pois naqueles idos tempos só se sabia o sexo do bebê na hora do parto, já que ainda não tinham inventado o Ultrassom, a ansiedade durava os 9 meses com a família toda sugerindo nomes diversos de menino e menina.
Imagino que tenha sido bem difícil essa parte, acho até que colocaram todas as sugestões escritas em pequenos papéis num vaso, e na hora sacudiram e retiraram um. E apesar de nome de Santa e seu histórico ser apreciável, não foi uma boa escolha. Ele carrega um peso estranho que me incomoda, mas fazer o quê?! Têm bem piores, e as redes sociais estão ai para comprovar verdadeiros palavrões.
Daí em diante foi só "correr para o abraço", tirando alguns momentos difíceis, dolorosos, insuportáveis e inexplicáveis vou seguindo em frente com a convicção de que não vim ao mundo à passeio e tenho algo a fazer pela minha evolução.
Faz parte da vida, rir chorar, trabalhar, progredir e procurar fazer a diferença na nossa vida e daquelas que convivem conosco.
E fazendo um balanço geral desses 72 anos, de tantos fins de tarde vendo ou não o sol se pôr, vendo ou não o sol nascer, acho que valeu muito a pena. 
Tive avós bons, Pais presentes e maravilhosos a quem honro minha existência. Tenho filhos amados que só me dão alegrias e netos que trilham os mesmos caminhos dos pais e me enchem de orgulho. Tenho irmãos que amo e por quem sou amada e seus filhos também me demonstram o mesmo amor. Tenho cunhados, cunhada, genros, nora e demais familiares que só me tratam com carinho e respeito. 
Também sou agraciada com amigos queridos e carinhosos que muitas vezes preenchem a ausência dos meus amores; Dá para reclamar?
Claro que não!!!!
Assim eu digo várias vezes ao dia, -"Obrigada Senhor, por tudo, porque tudo sempre concorre para o meu bem".-




domingo, 12 de agosto de 2018

Ser Pai não é Fácil

                                    Ser Pai não é Fácil

Acordei meio tarde nesse domingo ensolarado e já estranhei o silêncio reinante da casa. 
Fui até o aposento ao lado e verifiquei que eu estava sozinha.
Um certo e conhecido pânico tomou conta da minha pessoa, já imaginando o que deveria estar "aprontando" meu companheiro de domicílio, mas logo senti o cheiro de café fresco no ar, o que paradoxalmente me deu um certo alento.
Fui até a cozinha e uma mesa bem posta me aguardava, porém ele não estava; Pensei: - ai tem coisa.- 
Quer me fazer feliz me faça café, e ele sabe disso.
Apreensiva e me sentindo impotente, sem saber o que fazer, constatei que só me restava aguardar o retorno da criatura peluda ao lar para saber qual era a do dia.
Sentei no sofá perto da janela e peguei o jornal na mesinha lateral para ler as notícias mornas, que geralmente só repetiam o noticiário da TV da noite anterior.
Passando os olhos pelas manchetes, um tanto entediada, uma nota me chamou a atenção;
Haveria naquela manhã de domingo uma maratona "sui generis" para homenagear os pais, que contava com tarefas diversas, relativas ao convívio de pais e filhos; como trocar fraldas, vestir todas as roupinhas em três bebês de seis meses ao mesmo tempo, sobre uma cama, dar papinha para um bebê de 5 meses com ele sentado em cadeira alta em até 18 minutos, pentear e prender com prendedores e lacinhos os cabelos longos de duas meninas de menos de 5 anos...
Quando estava acabando de ler o restante do regulamento do evento, Otávio entra pela sala, totalmente descabelado, esbaforido e até lacrimejante, carregando no pescoço uma flamejante medalha dourada, enorme, presa à uma fita azul e se joga no sofá totalmente desvalido. Após alguns segundos, ainda visivelmente exausto, juntou o restante das forças e se arrastou na direção de seus aposentos avisando quase sem voz, que  pelo restante da semana não estaria para ninguém, e muito menos para o Dr. De Lamare, o autor do Livro A Vida do Bebê.
Ainda consegui perguntar antes da porta se fechar se ele havia ganho a medalha na Maratona do dia dos Pais, ele apenas fez que sim com a cabeça e me disse quase sem voz, que ser pai não é para qualquer um...

Só me intrigou uma coisa; Até onde eu sei o Otávio nunca foi Pai, acho até que ainda é virgem apesar de estar ultrapassando a terceira idade... :(



segunda-feira, 30 de julho de 2018

Piano, Piano...

                               Piano, Piano...
Acordei cedo e me dei conta da ausência do Otávio.
Talvez pelo silêncio reinante meu sexto sentido deu o alarme de perigo pela frente, aliás os meus sentidos todos estão me alertando aos badalos de uma catedral que o moreno de olhos amarelos está armando mais alguma coisa.
Sem querer entrar em desespero e já entrando, corri para o chuveiro para literalmente esfriar a cabeça. Em seguida, fui para a cozinha preparar um café para acabar de acender os neurônios apagados pelo sono.
Enquanto a cafeteira bufava eu fui dando uma geral na casa, guardando coisas espalhadas pela criatura desorganizada que mora comigo há sete anos.
Naquele momento, me chamou a atenção o enorme número de partituras musicais que apareceram assim do nada; algumas antigas e amarelecidas, que provavelmente foram compradas em sebo literário. Pilhas e pilhas delas, que me fizeram ficar ligada no que deveria estar tramando o desalmado que não conhece nem uma clave de sol e nunca ouviu falar em diapasão.
Encafifada com as possibilidades que poderiam advir desses achados, peguei uma xícara de café, e sentada no sofá, de costas para o sol que atravessava a varanda, comecei a elucubrar enquanto saboreava o pretinho básico indispensável para alinhar os neurônios.
Foi quando me dei conta de verdade, da quantidade de partituras musicais empilhadas em vários lugares da casa. O que será que ele pretendia com aquilo tudo?
Pois foi bem, naquela hora em que pensava distraída e preocupada, a campainha tocou e dei um pulo de susto, quase derrubando a xícara no chão.
Fui atender ligeiro a porta e me deparei com quatro homens fortes como estivadores de porto de navios. Um deles levava numa das mãos algumas notas ficais de várias cores.
Junto deles alguns curiosos, moradores do prédio, que me fizeram logo pensar; - ai vem coisa do Sr. Otávio. -
Respirei fundo e perguntei do que se tratava. O das notas fiscais me respondeu perguntando onde eles deveriam colocar o Piano de Cauda que era para ser entregue naquele endereço?
Só não caí para trás para não perder tempo em resolver o pepino da hora, que no caso, era um piano de cauda.
Respirei fundo, peguei "namãodedeus", e fui:
- Meu caro e distinto senhor, como pode ver daqui da porta, mesmo que eu quisesse muito um piano de cauda eu não teria lugar na minha "humilde residência" de pouco mais de 50m², não teria onde colocar esse "elefante branco" e nem que fosse preto ou listradinho. Imagino que a criatura peluda que o comprou tomou chá de borboleta antes de sair de casa. Então lhe agradeço a gentileza de o levar de volta, peço desculpas pelo contratempo, mas vou declinar desse "mimo" e passe muito bem.
Delicadamente fui fechando a porta devagar enquanto os ouvia discutir a possibilidade de entregá-lo pela varanda com a ajuda de um guindaste.
Voltei para o sofá, tomei um gole de café morno e fiquei aguardando pacientemente a criatura de olhos amarelos chegar para termos uma conversa "pianinho, pianinho"...



quarta-feira, 18 de julho de 2018

Velhos Amigos...




                                          Velhos Amigos...
Baco é meu cachorro-neto de 7 anos. Só falta falar, talvez nem falte, tanto que resmunga reivindicando suas vontades. É um folgado, dorme pelos sofás e vive de afagos e coçadinhas na barriga que cresce cada vez mais de tantos mimos.
Outro dia saímos, ele e eu, a passear pelo condomínio, lugar agradável, arborizado e ajardinado por onde passeia várias vezes ao dia, principalmente para correr atrás de todo mundo, principalmente para os entregadores de moto causando irritação sempre . Acho que não aprecia o ronco dos motores.Mesmo ele identificando os vizinhos, ele late enlouquecido para "conversar" em latidos. Acho que o negócio dele é transgredir para ser visto e reconhecido, para ganhar um "oi"; atitude de muito humano que a gente conhece. "Falem o que quiserem , mas falem de mim".
Pois como eu dizia, saímos em caminhada entre o sol e a sombra, num agradável passeio quando ele encontrou pelo caminho seu amigo Agenor, um cão pastor, capa preta, um tanto cabisbaixo e desanimado.
Baco então perguntou a ele o motivo do desânimo e ele contou que estava um tanto triste, preocupado e contou que ele e mais dois amigos, o Thor e o Narciso, se reuniram para assistir pela televisão o final da Copa do Mundo na Rússia entre a França e a Croácia, só que o amigo Thor, lá pelas tantas, começou a passar mal, ele já tem quase 20 anos, não é tão jovem, e quando mais o jogo se desenrolava, um gol daqui outro de lá e Thor foi ficando ofegante até que deu um treco e desmaiou, amolecendo as longas orelhas, ficando de lábios esbranquiçados, deixando todos aflitos com o inusitado. Levado às pressas ao veterinário, foi reanimado, tomou oxigênio, soro, essas coisas que fazem na emergência. Dai quando ficou melhor e mais fortalecido  explicou que como ele era multirracial, se identificava com os dois times como pátria dele e foi ficando angustiado em torcer ora por um time ora por outro, assim acabou enfartando. Agora está em repouso e tratamento. Aliais estou indo visitá-lo vamos?

E lá foram os dois amigos visitar o amigo torcedor indeciso... ;)

quarta-feira, 20 de junho de 2018

A Viagem Insólita



                                    A Viagem Insólita
O frio e a chuva batendo na janela me levaram a dormir cedo.
Afundei a cabeça nos meus travesseiros de penas de ganso, me cobri com minha mantas macias, adormeci como um bebê e sonhei que viajava num submarino, ou numa nave das profundezas do oceano.
Para melhor apreciar me sentei bem à frente, diante de uma enorme janela, na esperança de ver muitos peixes e até, por que não?, um monstro marinho com tentáculos e olhos enormes, ou talvez um olho só como aparecem nos filmes?!
Bem, já comecei achando  que a viagem era mais escura do que aparecem nos filmes, talvez o holofote à minha frente não fosse dos melhores, de boa qualidade e potência de foco, dai que fiquei mais atenta ainda ao que via mesmo o cenário não me agradando e a cada centímetro que avançávamos fui ficando cada vez mais desestimulada a continuar aquela aventura sinistra.
De repente dei de cara com uma ervilha e logo atrás um grão de milho que me pareceram enormes.  Tudo boiando num caldo semi transparente, de cor indefinida.
 - Zeus! - gritei.  Devo está num planeta de gigantes. - pensei.-  Mas continuamos a missão e vi também um grão de feijão, uma uva passa e uma folha de salsinha baterem no visor. Dai foi demais e me recusei a continuar.  Então pedi aos gritos que parassem a viagem que eu queria descer, até porque um alto falante avisava aos berros que a nave estava saindo do estômago e continuaríamos  seguindo o roteiro, primeiro passando pelo lado da vesícula biliar, que por sinal ostentava uma pedra que mais parecia uma pérola, e depois seguiríamos viagem em direção ao duodeno ou seja lá o que for que vem depois.
É claro que acordei em desespero e fui correndo tomar um sal digestivo, pois acho que alguma coisa que comi no jantar não me caiu bem...





sexta-feira, 1 de junho de 2018

Reunião de Condomínio


                                   Reunião de Condomínio
Há duas noites passadas dessa semana houve reunião de condomínio e como estava indisposta, resolvi não ir e até passaria uma procuração para a minha vizinha de andar responder por mim caso assim fosse necessário, confiando nos deuses por que a velhinha já caminha para o Alzheimer à passos largos e sei lá o que poderia resolver em meu nome, mas como não me sentia em condições de ir pensei nela que jamais falta a uma reunião.
Mas quando me conduzia à porta dela, Otávio se interpôs me dizendo que iria no meu lugar. Dai entrei em conflito, pois não sabia qual seria o meu pior representante, mas por conta do adiantado da hora da reunião resolvi dar a vez para o Otávio com a promessa de me relatar cada item da discussão com suas reações e atitudes dos condôminos.
Otávio saiu para a reunião que em segunda chamada se iniciaria impreterivelmente as 20h, dez minutos antes e retornou quinze para a meia noite febril, com os olhos arregalados e mais amarelos que nunca, desgrenhado e gaguejando, me garantindo que nunca mais faria parte de tal evento.
Depois de um chá forte de erva doce e Capim Cidreira, enrolado no cobertor de estampas de asas delta e gorro de aviador ele me relatou o que aconteceu na reunião:
- Olha só, quando cheguei tinha duas ou três pessoas atentas em olhar o celular que nem me viram entrar e nem responderam o meu boa noite. Os que presidiriam a sessão ordinária, e a palavra deve ser bem adequada, arrumavam o projetor de imagem e demais badulaques sobre a mesa de plástico coberta com toalha de renda, puro mau gosto, diga-se de passagem, também me ignoraram solenemente. Quando faltavam dois minutos chegou uma avalanche de "cinco mil pessoas" que foram se colocando nas cadeiras e fazendo o maior barulhão, já que cadeiras plásticas são para beira de piscina ou para serem usadas em lugares fechados por pessoas educadas. A turba também chegou ignorando uns aos outros, nem dando "boa noite cachorro!". Em seguida foi aberta a sessão com resmungos da maioria, ninguém prestava atenção, todos falavam juntos e sempre reclamando que nunca eram atendidos em suas reivindicações e que só sabiam cobrar cada vez mais; essa frase foi repetida por todos e aplaudida por unanimidade. Duas senhoras muito falantes, com voz de professora de crianças, falavam três tons acima do necessário aturdindo e estremecendo as minhas orelhas, outras duas trouxeram tricô para não haver desperdício de tempo, imagino que vivam desse trabalho.
Lá pelas tantas, os ânimos foram ficando acirrados e um condômino chamou um outro de ladrão e as mulheres começaram a discutir e até se atracaram aos gritos rolando pelo chão. A Senhora do Tricô ameaçava furar o olho da que brigava com a amiga dela, na verdade eram amigas de porta. A "homarada" não dava conta de soltar as duas e retirar a do tricô de cima também e a polícia foi chamada. Fomos todos parar na delegacia e a do olho furado para o hospital. Realmente não entendi para que fazem reunião de condomínio. Ninguém se conhece e nem querem se conhecer e os que se conhecem não se toleram. Ninguém chega nunca à um consenso!?
Eu em?...
Fomos dormir que era o melhor a fazer...