domingo, 11 de novembro de 2018

Indo e Vindo

                                    Indo e Vindo
Mês passado eu havia me programado para fazer uma viagem de dois dias, na última semana, pela Serra Catarinense; mais precisamente, Rio dos Cedros, Timbó e Pomerode. Comprei o pacote e aguardei pelo passeio até com certa ansiedade.
Na véspera, por conta das intensas chuvas, a Empresa de Turismo cancelou a viagem por medida de segurança, já que as estradas não ofereciam condições de trafego seguro, tanta era a água que caia que derretia literalmente os morros à beira das estradas, enquanto os rios subiam seus níveis cada vez mais rápido.
Pois bem, transferiram o passeio para os dias 9 e 10 de novembro esperando que as chuvas parassem, e quem disse que a chuva parou durante este tempo?
Nananinanão! Acho até que mandaram trazer mais água do Universo, de outro planeta, pois a água do planeta Terra estava (está) caindo toda em cima do Estado de Santa Catarina descia e subia no mesmo circuito. Não temos mais onde encontrar um lugar seco.
Para ter idéia, a guia do passeio nos informou que durante o mês de Outubro não choveu por apenas seis dias, e alternados! Isso não quer dizer que deu sol, aquele maravilhoso que a gente conhece e ama.
Durante todos estes dias sem chuva, não tivemos sol, no máximo algumas horas ou minutos. Muitos ficaram nublados, enfarruscados e sombrios o tempo todo. Affff...
Pois bem, voltemos ao passeio à caminho de Rio dos Cedros;
Embarcamos as 7h e depois de algumas horas viajando vagarosamente por medida de segurança, é claro, pelas estradas do interior e morro acima. Íamos em direção à Rio dos Cedros, num hotel nas montanhas, que fica à beira de um lago/represa.  
Finalmente chegamos; mas ainda para almoçar e já perto de três horas da tarde. Nem a empresa de turismo poderia prever tal coisa, eu acho.  Rio dos Cedros, assim se chama, por conta do caminho percorrido ter muitas árvores dessa qualidade na região e no percurso que ladeia o rio do mesmo nome. A paisagem é maravilhosa mesmo com chuva constante. Por todo o caminho se vê a mata nativa dividindo espaço com os rios sinuosos e cheios de pedras espumando de tanta violência por conta do volume de água.
As construções antigas, características, com seus jardins floridos, os animais  de tração e gado de corte, ovelhas, vão completando as paisagens bucólicas de estilo Europeu; aliais estivemos passeando pelo chamado Vale Europeu, onde a colonização Alemã e Italiana se instalaram mantendo as suas tradições. Carroças, ainda podem ser vistas pelos caminhos das propriedades rurais que ladeiam os rios. A região tem 23 Capelas e Igrejas além da Matriz que visitamos, simples e bonita com vitrais muito lindos.
E assim fomos subindo há mais de 1200 m de altitude, até chegar na região dos Lagos, quase divisa com o Paraná, há poucos quilômetros da cidade de Rio Negrinho-SC que faz divisa, onde nos hospedamos por uma noite num hotel rústico aconchegante e despojado porém elegante e delicadamente decorado com amor e romantismo. O lugar fica um pouco distante da estrada e é isolado do barulho de trafico. Fica entre pinheiros, araucárias e outras árvores grandes.                   Bom para repousar, ler, conversar e se recolher para meditação.      A comida é caseira tradicional e bem feita, com café Colonial a partir das 16h e  jantar as 20h. Tudo bom e agradável. Só não deu para aproveitar os espaços externos com lanchas de passeio, piscina, caminhadas etc.
Dia seguinte, no sábado, após o café, nos despedimos do lugar encantador e fizemos o caminho de volta, adivinhem????!! Embaixo de chuva torrencial sim, senhores e senhoras, brasileiros e brasileiras.
Retornamos até Timbó, no mesmo passo, devagar quase parando, Visitamos a casa de Lindolf Bell, o Poeta, aprendemos sua história e sua arte e andamos pela casa em que nasceu e viveu muitos anos  com sua família. Dai continuamos percorrendo Timbó com sua característica Alemã e chegamos ao Jardim Botânico onde almoçamos muito bem, num restaurante bem agradável. Entre um aguaceiro e outro conseguimos tirar uma foto do grupo, na ponte que atravessa o lago onde repousam Vitórias-Régias. Elas foram trazidas do Amazonas por um ilustre Botânico da cidade, cujo nome não me lembro agora. Porém elas atrofiaram ao se adaptarem e ficaram bem pequenas, o que não lhes tirou a beleza. Estavam com algumas flores das espécie, cor de rosa e vermelhas.
Dali voltamos à estrada, todos rindo para não chorarmos, pois a chuva só foi intensificando a cada metro percorrido. Passamos pelo centro de Timbó, pela frente do Museu do imigrante, que já conheço de outros passeios, cuja curiosidade na frente do mesmo é um arbusto de nome Timbé, que os índios, nativos daquela região, maceravam e jogavam no rio para os peixes comerem e eles pegarem. A planta tem propriedades narcóticas e deixavam os peixes sem ação facilitando a pesca com as mãos.
Do nome Timbé por ter muito daquelas plantas na região, passaram a chamar a cidade de Timbó. Pouco mais à frente uma ponte estreita, pênsil, estaiada, atravessa o Rio Benedito. Na região acontecem eventos musicais. A cidade faz parte de um circuito ciclístico e é referência pelos amantes do esporte. Há um monumento aos heróis e um Bar muito concorrido. Mais adiante fica a Prefeitura e a Câmara dos vereadores.
Continuamos a viagem de retorno (com chuva) em direção à Pomerode e paramos numa Padaria/Confeitaria de pães maravilhosos, muito boa. Haja comida para consolar os viajantes da água.
Também já passei por Pomerode outras vezes, porém por outro caminho e outra Confeitaria que fica mais ao Centro, também muito boa.
A cidade produz vários eventos durante o ano inclusive a Festa Pomerana onde as famílias desfilam em seus trajes típicos com suas Charretes enfeitadas de flores, carroças, carros de boi, tratores e ferramentas de trabalho rural, tudo enfeitado de muitas flores e vão distribuindo alegremente Chope que transportam em barris pela cidade. Tudo com muita alegria e com suas bandas e musicas típicas. Bonita festa que já apreciei numa outra viagem COM SOL!
Nessas alturas tirar um sorriso de alguém da caravana estava difícil. A viagem estava terminando, quase em casa, e não havia feito uma nesga de sol para animar.
E o pior é que ninguém conseguiu me mostrar um pé de Cedro, uma árvore tão famosa na construção de móveis e casas. As pessoas que a conheciam apontavam para a massa densa verde de mil tons e diziam é "aquela". Alguém me mostrou uma no Google (!!!) de tanto que eu perguntava pela famosa que deu nome ao passeio e voltei sem a conhecer pessoalmente.
Talvez a Praça XV tenha para eu a conhecer e me apresentar ...
Hoje finalmente acordei hoje com uma luz intensa, estranha e esquisita a me iluminar... até fiquei com medo.
Me reportei ao primeiro dia quando sai das cavernas nos primórdios dos tempos, na idade da pedra... ;)
Era o sol esse fujão!
Bom domingo...


quinta-feira, 8 de novembro de 2018

Alto Escalão


                                        Alto Escalão
Acordei bem cedo e fiquei por uns momentos ouvindo enternecida os passarinhos cantarem nas árvores do Condomínio onde moramos.
Fiquei embaixo do edredom cheia de preguiça dando um tempo para me encorajar e começar meu dia. Um pouco mais atenta aos rumores do amanhecer percebi o cantarolar baixinho do Otávio e de água de chuveiro escorrendo. Ele estava feliz, ao mesmo tempo que isso era bom, também podia não ser...
Imediatamente liguei minhas antenas e radares, ajustei a sintonia para o modo "paciência" e me levantei. Cruzamos no corredor, em silêncio trocamos olhares e ele me fez o gesto clássico dos anos sessenta; Paz e Amor com os dois dedos, indicador e médio, entreabertos e para cima.
Enquanto a água escorria pelo meu corpo reforcei as minhas orações e liguei o botão de alerta no modo "piscando" em pulso lento para crescente. Sentia alguma coisa no ar, o famoso sexto sentido, que temos e nem sempre damos atenção.
Mais tarde, enquanto tomava meu café e lia meu jornal a campainha estridente do telefone me assustou e um banho de adrenalina se espalhou pelo meu corpo me fazendo derramar o líquido precioso que me mantém ligada, o meu café. Neste momento o alarme do meu sismógrafo particular me avisou da possibilidade de um terremoto à caminho. Ajustei as orelhas para o modo atenção máxima e fiquei ouvindo a parte de cá da conversa enquanto pensava em quem poderia estar ligando para ele à esta hora, para a criatura peluda que mora comigo, sobrinho do último Xá da Pérsia, mais conhecido como Otávio; Quem poderia ser?
Infelizmente como só ouvia o lado de cá fiquei curiosíssima, pois ele só respondia: "não, claro que não, impossível, sem condições, tenho outros compromissos agendados, concordo que seja para poucos, mas vou declinar, avise que fica para uma próxima... obrigada... veja bem... avise que não adianta insistir... e nem enviar o convite pessoalmente por mensageiro tão digno que não estou interessado. Obrigado, passar bem..."  
Em seguida desligou e me olhou com aqueles olhos amarelos impassíveis e em silêncio por alguns segundos. E sem nada a comentar se dirigiu para o quarto e sem cerimônia se refestelou entre as almofadas preferidas.
É claro que fui saber do que tratava tão misterioso telefonema, e sabe o que me disse com aquele olhar entediado que lhe é peculiar?
Entre um bocejo e outro ele me informou que era um assessor da Presidência o convidando para assumir um Ministério! -Mas nem quis saber qual era, não aceitei. Com certeza haverá muito trabalho pela frente e teria que me mudar imediatamente para Brasília e  só de pensar já fiquei estressado e por demais cansado, e por isso vou até me recolher e não estarei para ninguém, nem mesmo para aquele que disseram que iriam enviar para me convencer... o que nasceu em Maringá, moreno, jovem ainda, aquele que foi escolhido primeiro... O cara do telefone até me disse que ele com certeza me convenceria a fazer parte da Nova Era Brasil, mas fique ligada; eu não estarei para ninguém, nem para o Papa.
Dito isto, se acomodou e dormiu imediatamente, e eu voltei para o meu café e ao jornal molhado...

É mole conviver com essa criatura peluda?



sexta-feira, 19 de outubro de 2018

A Viagem do Otávio


                                   A Viagem do Otávio
Acordei com um barulho estranho, um resmungo indefinido, um sussurro que mesmo abrindo a orelha ao máximo e fazendo dilatar até onde deu meu canal auditivo, o som não chegava limpo e claro ao tímpano; o som daquele diálogo sussurrado na cozinha.
Deixei para lá e imaginei um rádio mal sintonizado num programa qualquer de entrevistas, onde havia conversa entre os locutores e convidados; só poderia ser isso, mas em se tratando do morador que coabita comigo tudo pode acontecer.
Levantei e fui para o chuveiro para começar meu dia. Enquanto tomava o banho senti o cheiro de café fresco entrando pela fresta da porta o que me encheu da alegria, que só sabem do que falo os fissurados em café, quando esse cheiro entra pelas narinas sem pedir licença tudo passa a ser diferente ao nosso redor...
Apressei o banho e logo estava na cozinha diante do Otávio que gentilmente havia feito o café e até arrumou a mesa direitinho.
Já estranhei a coisa. Quando um preguiçoso de carteirinha faz certas coisas, como agrados espontaneamente, é porque vem confusão pela frente. Ai vem "côsa".
Respirei fundo e me preparei para pensar depois de tomar meu café descansada. Antes não dá; sem condições.
Agradeci a gentileza e me acomodei enquanto ele saía rápido da cozinha se embrenhando no quarto e provavelmente se enfiado literalmente entre os lençóis.
Os meus neurônios entraram em alerta vermelho na hora: aí tem, a se tem!
Continuei impávida tomando o meu café que já havia perdido o gosto e o cheiro, como toma Chá a realeza britânica, com elegância e aparente indiferença.
Terminei, arrumei tudo, já que não gosto de bagunça, e fui ler meu jornal sentada confortavelmente na minha poltrona de leitura, mas os neurônios já haviam ligado a sirene de alarme geral e achei melhor perguntar o que estava acontecendo no reino do sobrinho do Xá da Pérsia.
Respirei fundo e fui!
Daí ele me contou como se tivesse contando favas, na maior singeleza, com o seu olhar amarelo vagueando aqui e ali, que ele havia feito uma viagem àquela noite e que na realidade havia ficado 10 anos fora de casa...
Saí do quarto batendo a porta atrás de mim e fui ler meu jornal de volta na sala.
Só que minha cabeça nessas alturas, apitava e zunia como um alarme de guerra. E quem disse que eu conseguiria ler ou fazer alguma coisa sem saber dessa história?
Voltei ao quarto dele e o encontrei entre os lençóis dormindo candidamente e até já ressonava... Ah mas isso não ficaria assim;
puxei a coberta despertando a criatura olhuda e fiz com que me contasse o acontecido.
- Sabe quando você levantou e foi para o chuveiro?  Àquela hora o meu amigo Zogg, um extraterrestre, ainda estava aqui na cozinha tomando café comigo, até levou uma garrafa térmica para a nave, para que os outros pudessem saborear essa nossa iguaria.
- Sei... e...
- Pois é, nesta madrugada eu acordei com um clarão na janela e logo em seguida me deparei com um ET dentro do meu quarto. Por algum mistério que ainda não decifrei, eu conversava na minha língua e ele na dele e a gente se entendia numa linguagem só...
- Ele era verde, ou era como aquele de Varginha, feio pra dedéu?
- Não vou contar mais nada, você não me leva à sério...
Ameaçou voltar para baixo do lençol, mas não deixei, queria ouvir tudo.
- Pois ele me convidou para conhecer o planeta dele e eu fui; entrei na nave de cor cobre bem escura, cheia de luzes espelhadas, sabe bolas de espelho que refletem luzes? Essa ai, era assim a nave dos meus amigos extraterrestres. Ele pilotava juntamente com mais dois companheiros de viagem.  E Assim lá fui eu com eles. Logo que saímos fora da atmosfera e da nossa galáxia, o tempo parou e fiquei dez dias no planeta Rebimbó, enquanto que o nosso passava apenas algumas poucas horas na trajetória ao redor do sol. Assim fui conhecendo tudo por lá... Você não está acreditando em mim né?
Achei melhor tomar um comprimido marrom para dor de cabeça e voltar a ler meu jornal molhado de café...
Bom dia para quem pode... ;)

sexta-feira, 12 de outubro de 2018

O Fã do Bob

                             O Fã do Bob
Otávio desde abril deste ano se tornou admirador do Bob Marley e passou a ouvir suas músicas e a dançar pela casa endoidecido.
Tanto dançou e cantou que seu pêlo começou a enroscar e fazer dred's, como os do Bob e seus admiradores; dred's são àqueles nós indesembaraçáveis que formam massas de cabelos impenteáveis.
Mesmo procurando desmanchar com os dedos enquanto fazia cafuné, já que ele odeia ser penteado, chegou uma hora que não dei mais conta e ele passou a carregar um casacão de lã de pêlo grosso horroroso, fora que a coceira vai se instalando cada vez mais.
Daí, esta semana, foi preciso passar umas horas no Pet para se deixar tosquiar como uma ovelha, o que o deixou injuriado por demais.
Voltou para casa mais parecendo filho de macaquinho; só sobrou a cabeça e o rabo com algum pêlo baixo, o restante desnudou a criaturinha totalmente.
Dai que o sobrinho do Xá da Pérsia injuriou-se de vez e me excomungou o que pôde. Recolheu-se aos aposentos e me afirmou que não estaria para ninguém até a semana do Natal, quando iria viajar para longe desses malditos pets que não respeitam nem a integridade de um ser de alta linhagem como ele colocando à mostra as suas partes íntimas como se fossem brincos e frutos à venda numa feira qualquer. Palavras dele.
Pegou seus CD's do Bob Marley e jogou tudo na lixeira como se a culpa fosse dele, não se deixar pentear.
Agora quando toca um Reggae no rádio ele corre trocar de estação.
Traumatizou de verdade. Ainda bem que o verão está chegando e o pêlo vai crescer rapidinho.
Que ele não me ouça, mas que ficou esquisito pacas, lá isso ficou...
Tadinho, que maldade...

sexta-feira, 14 de setembro de 2018

A Herança

                                        A Herança
Enquanto tomava mais uma xícara de café, na verdade já era a terceira da manhã, eu lia um Romance estirada no sofá da sala, e ouvia os espirros do Otávio lá no quarto que lia as manchetes do dia no seu Tablet, refestelado sobre as almofadas. Eram tantos os espirros que fiquei deveras preocupada.
Fui falar com ele que me disse que era por conta do cheiro do defumador. Me assustei; como defumador? Não tenho costume de acender incenso, mirra e congêneres para nada, mesmo que me garantam a fortuna, o afastamento do mau olhado,a ziquizira e maus fluídos. Não gosto da fumaça e nem comida defumada.
Foi aí que reparei que entrava um rolo de fumo, sem dó nem piedade pela janela do quarto do Otávio, e ele me garantiu que assim estava desde de manhã. Fechei a janela e voltei para o meu livro que estava cada vez mais interessante.
Pouco mais tarde, quando saía para ir ao mercado, encontrei a vizinha saindo também, toda trabalhada no roxo e dourado, de turbante e maquiada para uma festa à fantasia e perguntei discretamente sobre a defumação daquela manhã e ainda delicadamente insinuei a alergia do Otávio e me surpreendi com a explicação de que havia acabado de se mudar e precisava fazer uma limpeza geral no ambiente para dissipar todas as energias deletérias que nos prejudicam e impedem a circulação do amor e do dinheiro, sugando os mananciais eletromagnéticos enviados pela Lua em minguante para nos energizar de bons fluidos, sem falar na quantidade de gatos que moram no condomínio que atraem aquela palavra que ela não pronuncia nem sob pauladas.
Seja lá o que isso signifique, pois estou até agora segurando o meu queixo para não cair, já que a criatura me falou tudo isso de um fôlego só, enquanto me entregava um cartão de visita onde se identifica como "vidente", daquelas que traz seu amor ou o dinheiro de volta, mas o que é pior; parece que não gosta de gatos.
Azar o dela!
Mais tarde, voltei ao meu romance que estava bem na página onde eu iria descobrir quem era o pai da criança, e o interfone tocou. Contrariada fui atender e soube que era dos Correios, uma entrega especial.
Lá fui eu de pantufas e tudo para não perder tempo e voltar ao romance que estava eletrizante.
Joguei a carta sobre a mesa e nem fui ver de quem era e para quem era. Pois devia mas o romance...
Em seguida chega Otávio com cara de sono e vê a carta sobre a mesa. Abre o envelope enorme que trazia um Brasão da Embaixada da Pérsia e idioma desconhecido, mas dava para reconhecer o nome do Otávio.
Nervosamente ele abriu a carta e com ajuda de um tradutor  do computador descobriu que ele havia recebido uma herança legítima do Xá da Pérsia, o Xá Octhavianos Pérsius XIII, um parente afastado, aliás literalmente afastado.                       
A carta trazia o convite para retirá-la no Porto de Itajaí diante  de um comprovante de parentesco oficial.
Urrrú! Estou rico, estamos ricos!!! Gritava sem parar o celerado correndo de um lado para o outro pela casa enfumaçada.
De repente parou e perguntou: como vou arrumar um documento de herdeiro legítimo a essa hora? Nunca soube desse parente?!
Retruquei com cara de tédio que era só procurar no Google, imprimir e levar junto com a carteira de identidade, título de eleitor e carteira do Clube de esportes radicais. Tudo junto comprovaria a verdadeira identidade dele.
Enquanto ele procurava no computador os comprovantes eu coloquei duas mudas de roupas numa valise e fomos em direção ao Porto de Itajaí curiosíssimos para ver o tal objeto que veio de tão longe...
La chegando procuramos o Escritórios das Docas para desembaraçar o objeto na alfândega, quando fomos informados que era um Container inteiro!!!!!
Sim! Foi um choque saber disso, mas seja lá o que for, já me preocupei seriamente em me dar conta de que vindo das origens do Otávio eu deveria me por de joelhos e esperar o pior em preces.
Depois de horas de espera e manobras de vários guindastes retirando a "coisa" de um lado e colocando no outro finalmente fomos abrir para descobrir de que se tratava a herança vinda de tão longe.
Era a coleção completa dos mais exóticos incensos do mundo, comprados, mandados buscar nos lugares mais longínquos do mundo, recolhidos e guardados como verdadeiras jóias pelo parente do Otávio, o legítimo Xá da Pérsia, Octhavianos Pérsius XIII, que os guardou a vida toda desde que ganhou uma caixinha deles no sexto aniversário...

Vai um aí para afastar os maus espíritos?

quinta-feira, 30 de agosto de 2018

O sonho acabou de acabar


                               O Sonho acabou de acabar
Acordei cedo, como sempre, olhei para fora e assisti com admiração o nascer do dia, da aurora, do alvorecer e até fotografei, como faço sempre que a imagem pede a eternidade do momento.
Depois do banho tomei tranquila meu café, depois tomei outro e mais outro com a sensação de que faltava mais alguma coisa. Queria comer algo mais eu não sabia o que era.
Passeei pela casa em vão, tentando preencher o vazio que me tomava a alma, que sentia falta de algo que eu não definia.
Foi quando o locutor da rádio falou algo que me chamou a atenção; ele dizia que devemos correr atrás do nosso sonho. Sim, era isso! Correr atrás do nosso sonho, do meu sonho. Eu estava com uma vontade indecente de comer um sonho fofo recheado de goiabada coberto de açúcar de confeiteiro.
Não perdi tempo e fui pedir ao Otávio para ir até a padaria buscar um sonho fofo recheado de goiabada e coberto com açúcar de confeiteiro.
Levantando os olhos amarelos e entediados do jornal que ele lia no Tablet, redarguiu intrépido:
- Por que eu faria isso, se é você que está com vontade de comer um sonho fofo recheado de goiabada e coberto de açúcar de confeiteiro?
- Simplesmente porque estou com vontade de comer um sonho bem fofo, recheado de goiabada e coberto de açúcar de confeiteiro, mas não estou com vontade nenhuma de ir buscar na padaria, só por isso.
- E porque você acha que eu estou com vontade de ir até a padaria buscar um sonho fofo, recheado de goiabada, para você; se eu nem como sonho e nem faz parte da minha cadeia alimentar?! E vontade de sair daqui, tenho nenhuma.
- Tudo bem; já até perdi a vontade de comer um sonho fofo, recheado de goiabada e coberto de açúcar de confeiteiro ou qualquer coisa melada ou cheia de açúcar, e até acho bom, porque a "tiabete" não ia gostar nada desse meu desejoso deslize palatal adocicado que me assaltou no dia de hoje; mas não custava nada me fazer um favor, um agrado de vez em quando, faz parte da política da boa vizinhança servir para agradar, não esperar só ser servido.
- Ah é?  A preguiça agora argumenta bem, para se defender em? Sim senhora, admirei agora a sua auto defesa...
- Olha quem fala em preguiça alheia?! Fica ai de molho o dia todo, semanas inteiras hibernando como um urso, e eu que sou preguiçosa só porque pedi um favorzinho...
- Então se quer muito comer um sonho fofo, recheado de goiabada e coberto de açúcar de confeiteiro telefona para a padaria e pede para entregarem, se atualize; ninguém vai mais à padaria, mandam buscar os brioches.

- É da Padoca? Dá para entregar um sonho fofo recheado de goiabada e coberto com açúcar de confeiteiro?
- Senhora, só temos sonhos recheados de Açaí e coberto com açúcar mascavo...

Realmente o sonho acabou... sniff... sniff...
Já não se fazem mais sonhos como antigamente, recheados de goiabada, creme de gemas, doce de leite...

Açaí ninguém merece...

segunda-feira, 20 de agosto de 2018

Ônibus Fantasma


                                 Ônibus Fantasma
Ontem,domingo, amanheceu um lindo dia de sol, céu sem nuvens, temperatura por volta de 15º sem ventinho e nem ventão.
Acordei cedo, para um domingo, e cada vez que olhava pela janela e ouvia os passarinhos piando lá fora ficava tentada a sair e dar uma volta para usufruir da oportunidade que o Criador me proporcionava ao me dar vida e saúde, de desfrutar da Natureza.
Pois bem, tomei Café e banho e saí na direção do ponto de ônibus que fica logo depois da esquina da minha casa respirando profundamente o ar fresco da manhã de inverno, enquanto o sol me acariciava levemente a pele. Por ser domingo já tem menos ônibus circulando e ontem parecia que estavam em greve, pois lá fiquei por "horas" aguardando um veiculo qualquer que me levasse à passeio, poderia ser uma carruagem, uma carroça ou o carro do Batman, o que eu queria era sair um pouco de casa.
Estava quase desistindo quando apareceram dois só para me afrontar, mas tudo bem, eu estava em paz e nem xinguei os deuses do transporte por isso...
Levada ao Terminal Central, onde a maioria das empresas de ônibus oferecem linhas com roteiros diversos, procurei uma das plataformas e optei, sem pensar muito, por tomar o ônibus Circular "Volta ao Morro", mais precisamente a que sai pelo lado Norte. Tem outra linha que sai pelo lado Sul e se encontram em determinado ponto.
Para quem não mora aqui é bom explicar que esta linha contorna todo o morro que se destaca e é visível em grande parte da entrada da Ilha pelas pontes.
Pois bem, este percurso leva uns 45 minutos em transito livre, um pouco mais nos dias de semana, passando pela casa do Governador, pela UFSC e segue de volta ao terminal Central.
Dito isto, volto ao ônibus:
Ao entrar percebi que só haviam mais dois passageiros sentados em lados opostos, bem no final do corredor.
Deu no relógio 10.10h saímos da plataforma.
Eu sentada na frente da catraca, com total visão à minha frente, entre o motorista e o cobrador que iam conversando animados.
Depois de uma dez paradas de ônibus sem subir no ônibus nenhum passageiro, o cobrador se deu conta do inusitado e comentou com o motorista se ele conferiu a placa do itinerário, no que o motorista confirmou que sim, havia conferido; e continuaram percebendo que mesmo passando em paradas com pessoas aguardando ninguém dava sinal para pararem. Certa hora, já encafifado com a coisa, o motorista parou e foi conferir se estava tudo certo com o ônibus e nessas alturas achei que eu é que estava sonhando e me achando num ônibus esquisitamente fantasma.
Até que transcorrido bem mais da metade do percurso, uma daquelas pessoas lá de traz, deu sinal de parada e desceu, dois pontos depois a outra pessoa também desceu. Só ficamos o motorista, o cobrador e eu naquele ônibus estranhamente vazio, continuando a estranha viagem o que já causava riso nervoso em nós três. E o pior é que eu não pretendia descer em lugar nenhum, já que apenas queria passear. Costumo fazer isso quando estou chateada ou querendo sair, passear e ver gente.
 O motorista olhava para o cobrador e para mim pelo espelho e provavelmente os dois me olhavam intrigados. 
Quando já estávamos retornando, uns dois pontos de parada antes do Terminal Central, entraram dois jovens no ônibus "fantasma" que fez  misteriosamente todo o itinerário com apenas três passageiros de ida e três de retorno sendo que uma não paga e não desce em ponto nenhum, apenas passeia...


É isso, cada um se diverte como pode, eu faço dessas coisas... :)


quarta-feira, 15 de agosto de 2018

Gratidão, gratidão, gratidão...

                                  Gratidão, gratidão, gratidão.
Foi numa quarta feira, num longínquo 14 de agosto, com a lua em quarto minguante, dia de Santo Eusébio, bem no pôr do sol, mais precisamente as 17.35h, que cheguei neste mundo de Deus, provavelmente portando lápis, borracha e papel para anotar as minhas impressões sobre o evento. Infelizmente ainda não haviam inventado o celular senão eu teria registrado tudo com uma "Self" com a parteira, a mina mãe e meu pai, que sempre esteve presente em todos os partos dos filhos dando seu apoio.
Também não pude colocar as fotos do sol se pondo, fechando aquele dia inesquecível e marcante na minha vida.
Minha mãe como sempre deve ter falado o que sempre exclamou em alto e bom som: "ela é muito moderna", nunca entendi o que ela queria dizer com isso, pobre de mim, criatura que corre todo dia atrás do trem da vida. Já meu pai, tenho certeza, me fez um cafuné nas penugens de minha cabeça com os olhos rasos de lágrima de emoção. Sempre fazia isso.
Após as primeiras efusões de surpresa e alegria, pois naqueles idos tempos só se sabia o sexo do bebê na hora do parto, já que ainda não tinham inventado o Ultrassom, a ansiedade durava os 9 meses com a família toda sugerindo nomes diversos de menino e menina.
Imagino que tenha sido bem difícil essa parte, acho até que colocaram todas as sugestões escritas em pequenos papéis num vaso, e na hora sacudiram e retiraram um. E apesar de nome de Santa e seu histórico ser apreciável, não foi uma boa escolha. Ele carrega um peso estranho que me incomoda, mas fazer o quê?! Têm bem piores, e as redes sociais estão ai para comprovar verdadeiros palavrões.
Daí em diante foi só "correr para o abraço", tirando alguns momentos difíceis, dolorosos, insuportáveis e inexplicáveis vou seguindo em frente com a convicção de que não vim ao mundo à passeio e tenho algo a fazer pela minha evolução.
Faz parte da vida, rir chorar, trabalhar, progredir e procurar fazer a diferença na nossa vida e daquelas que convivem conosco.
E fazendo um balanço geral desses 72 anos, de tantos fins de tarde vendo ou não o sol se pôr, vendo ou não o sol nascer, acho que valeu muito a pena. 
Tive avós bons, Pais presentes e maravilhosos a quem honro minha existência. Tenho filhos amados que só me dão alegrias e netos que trilham os mesmos caminhos dos pais e me enchem de orgulho. Tenho irmãos que amo e por quem sou amada e seus filhos também me demonstram o mesmo amor. Tenho cunhados, cunhada, genros, nora e demais familiares que só me tratam com carinho e respeito. 
Também sou agraciada com amigos queridos e carinhosos que muitas vezes preenchem a ausência dos meus amores; Dá para reclamar?
Claro que não!!!!
Assim eu digo várias vezes ao dia, -"Obrigada Senhor, por tudo, porque tudo sempre concorre para o meu bem".-




domingo, 12 de agosto de 2018

Ser Pai não é Fácil

                                    Ser Pai não é Fácil

Acordei meio tarde nesse domingo ensolarado e já estranhei o silêncio reinante da casa. 
Fui até o aposento ao lado e verifiquei que eu estava sozinha.
Um certo e conhecido pânico tomou conta da minha pessoa, já imaginando o que deveria estar "aprontando" meu companheiro de domicílio, mas logo senti o cheiro de café fresco no ar, o que paradoxalmente me deu um certo alento.
Fui até a cozinha e uma mesa bem posta me aguardava, porém ele não estava; Pensei: - ai tem coisa.- 
Quer me fazer feliz me faça café, e ele sabe disso.
Apreensiva e me sentindo impotente, sem saber o que fazer, constatei que só me restava aguardar o retorno da criatura peluda ao lar para saber qual era a do dia.
Sentei no sofá perto da janela e peguei o jornal na mesinha lateral para ler as notícias mornas, que geralmente só repetiam o noticiário da TV da noite anterior.
Passando os olhos pelas manchetes, um tanto entediada, uma nota me chamou a atenção;
Haveria naquela manhã de domingo uma maratona "sui generis" para homenagear os pais, que contava com tarefas diversas, relativas ao convívio de pais e filhos; como trocar fraldas, vestir todas as roupinhas em três bebês de seis meses ao mesmo tempo, sobre uma cama, dar papinha para um bebê de 5 meses com ele sentado em cadeira alta em até 18 minutos, pentear e prender com prendedores e lacinhos os cabelos longos de duas meninas de menos de 5 anos...
Quando estava acabando de ler o restante do regulamento do evento, Otávio entra pela sala, totalmente descabelado, esbaforido e até lacrimejante, carregando no pescoço uma flamejante medalha dourada, enorme, presa à uma fita azul e se joga no sofá totalmente desvalido. Após alguns segundos, ainda visivelmente exausto, juntou o restante das forças e se arrastou na direção de seus aposentos avisando quase sem voz, que  pelo restante da semana não estaria para ninguém, e muito menos para o Dr. De Lamare, o autor do Livro A Vida do Bebê.
Ainda consegui perguntar antes da porta se fechar se ele havia ganho a medalha na Maratona do dia dos Pais, ele apenas fez que sim com a cabeça e me disse quase sem voz, que ser pai não é para qualquer um...

Só me intrigou uma coisa; Até onde eu sei o Otávio nunca foi Pai, acho até que ainda é virgem apesar de estar ultrapassando a terceira idade... :(



segunda-feira, 30 de julho de 2018

Piano, Piano...

                               Piano, Piano...
Acordei cedo e me dei conta da ausência do Otávio.
Talvez pelo silêncio reinante meu sexto sentido deu o alarme de perigo pela frente, aliás os meus sentidos todos estão me alertando aos badalos de uma catedral que o moreno de olhos amarelos está armando mais alguma coisa.
Sem querer entrar em desespero e já entrando, corri para o chuveiro para literalmente esfriar a cabeça. Em seguida, fui para a cozinha preparar um café para acabar de acender os neurônios apagados pelo sono.
Enquanto a cafeteira bufava eu fui dando uma geral na casa, guardando coisas espalhadas pela criatura desorganizada que mora comigo há sete anos.
Naquele momento, me chamou a atenção o enorme número de partituras musicais que apareceram assim do nada; algumas antigas e amarelecidas, que provavelmente foram compradas em sebo literário. Pilhas e pilhas delas, que me fizeram ficar ligada no que deveria estar tramando o desalmado que não conhece nem uma clave de sol e nunca ouviu falar em diapasão.
Encafifada com as possibilidades que poderiam advir desses achados, peguei uma xícara de café, e sentada no sofá, de costas para o sol que atravessava a varanda, comecei a elucubrar enquanto saboreava o pretinho básico indispensável para alinhar os neurônios.
Foi quando me dei conta de verdade, da quantidade de partituras musicais empilhadas em vários lugares da casa. O que será que ele pretendia com aquilo tudo?
Pois foi bem, naquela hora em que pensava distraída e preocupada, a campainha tocou e dei um pulo de susto, quase derrubando a xícara no chão.
Fui atender ligeiro a porta e me deparei com quatro homens fortes como estivadores de porto de navios. Um deles levava numa das mãos algumas notas ficais de várias cores.
Junto deles alguns curiosos, moradores do prédio, que me fizeram logo pensar; - ai vem coisa do Sr. Otávio. -
Respirei fundo e perguntei do que se tratava. O das notas fiscais me respondeu perguntando onde eles deveriam colocar o Piano de Cauda que era para ser entregue naquele endereço?
Só não caí para trás para não perder tempo em resolver o pepino da hora, que no caso, era um piano de cauda.
Respirei fundo, peguei "namãodedeus", e fui:
- Meu caro e distinto senhor, como pode ver daqui da porta, mesmo que eu quisesse muito um piano de cauda eu não teria lugar na minha "humilde residência" de pouco mais de 50m², não teria onde colocar esse "elefante branco" e nem que fosse preto ou listradinho. Imagino que a criatura peluda que o comprou tomou chá de borboleta antes de sair de casa. Então lhe agradeço a gentileza de o levar de volta, peço desculpas pelo contratempo, mas vou declinar desse "mimo" e passe muito bem.
Delicadamente fui fechando a porta devagar enquanto os ouvia discutir a possibilidade de entregá-lo pela varanda com a ajuda de um guindaste.
Voltei para o sofá, tomei um gole de café morno e fiquei aguardando pacientemente a criatura de olhos amarelos chegar para termos uma conversa "pianinho, pianinho"...