domingo, 12 de agosto de 2018

Ser Pai não é Fácil

                                    Ser Pai não é Fácil

Acordei meio tarde nesse domingo ensolarado e já estranhei o silêncio reinante da casa. 
Fui até o aposento ao lado e verifiquei que eu estava sozinha.
Um certo e conhecido pânico tomou conta da minha pessoa, já imaginando o que deveria estar "aprontando" meu companheiro de domicílio, mas logo senti o cheiro de café fresco no ar, o que paradoxalmente me deu um certo alento.
Fui até a cozinha e uma mesa bem posta me aguardava, porém ele não estava; Pensei: - ai tem coisa.- 
Quer me fazer feliz me faça café, e ele sabe disso.
Apreensiva e me sentindo impotente, sem saber o que fazer, constatei que só me restava aguardar o retorno da criatura peluda ao lar para saber qual era a do dia.
Sentei no sofá perto da janela e peguei o jornal na mesinha lateral para ler as notícias mornas, que geralmente só repetiam o noticiário da TV da noite anterior.
Passando os olhos pelas manchetes, um tanto entediada, uma nota me chamou a atenção;
Haveria naquela manhã de domingo uma maratona "sui generis" para homenagear os pais, que contava com tarefas diversas, relativas ao convívio de pais e filhos; como trocar fraldas, vestir todas as roupinhas em três bebês de seis meses ao mesmo tempo, sobre uma cama, dar papinha para um bebê de 5 meses com ele sentado em cadeira alta em até 18 minutos, pentear e prender com prendedores e lacinhos os cabelos longos de duas meninas de menos de 5 anos...
Quando estava acabando de ler o restante do regulamento do evento, Otávio entra pela sala, totalmente descabelado, esbaforido e até lacrimejante, carregando no pescoço uma flamejante medalha dourada, enorme, presa à uma fita azul e se joga no sofá totalmente desvalido. Após alguns segundos, ainda visivelmente exausto, juntou o restante das forças e se arrastou na direção de seus aposentos avisando quase sem voz, que  pelo restante da semana não estaria para ninguém, e muito menos para o Dr. De Lamare, o autor do Livro A Vida do Bebê.
Ainda consegui perguntar antes da porta se fechar se ele havia ganho a medalha na Maratona do dia dos Pais, ele apenas fez que sim com a cabeça e me disse quase sem voz, que ser pai não é para qualquer um...

Só me intrigou uma coisa; Até onde eu sei o Otávio nunca foi Pai, acho até que ainda é virgem apesar de estar ultrapassando a terceira idade... :(



segunda-feira, 30 de julho de 2018

Piano, Piano...

                               Piano, Piano...
Acordei cedo e me dei conta da ausência do Otávio.
Talvez pelo silêncio reinante meu sexto sentido deu o alarme de perigo pela frente, aliás os meus sentidos todos estão me alertando aos badalos de uma catedral que o moreno de olhos amarelos está armando mais alguma coisa.
Sem querer entrar em desespero e já entrando, corri para o chuveiro para literalmente esfriar a cabeça. Em seguida, fui para a cozinha preparar um café para acabar de acender os neurônios apagados pelo sono.
Enquanto a cafeteira bufava eu fui dando uma geral na casa, guardando coisas espalhadas pela criatura desorganizada que mora comigo há sete anos.
Naquele momento, me chamou a atenção o enorme número de partituras musicais que apareceram assim do nada; algumas antigas e amarelecidas, que provavelmente foram compradas em sebo literário. Pilhas e pilhas delas, que me fizeram ficar ligada no que deveria estar tramando o desalmado que não conhece nem uma clave de sol e nunca ouviu falar em diapasão.
Encafifada com as possibilidades que poderiam advir desses achados, peguei uma xícara de café, e sentada no sofá, de costas para o sol que atravessava a varanda, comecei a elucubrar enquanto saboreava o pretinho básico indispensável para alinhar os neurônios.
Foi quando me dei conta de verdade, da quantidade de partituras musicais empilhadas em vários lugares da casa. O que será que ele pretendia com aquilo tudo?
Pois foi bem, naquela hora em que pensava distraída e preocupada, a campainha tocou e dei um pulo de susto, quase derrubando a xícara no chão.
Fui atender ligeiro a porta e me deparei com quatro homens fortes como estivadores de porto de navios. Um deles levava numa das mãos algumas notas ficais de várias cores.
Junto deles alguns curiosos, moradores do prédio, que me fizeram logo pensar; - ai vem coisa do Sr. Otávio. -
Respirei fundo e perguntei do que se tratava. O das notas fiscais me respondeu perguntando onde eles deveriam colocar o Piano de Cauda que era para ser entregue naquele endereço?
Só não caí para trás para não perder tempo em resolver o pepino da hora, que no caso, era um piano de cauda.
Respirei fundo, peguei "namãodedeus", e fui:
- Meu caro e distinto senhor, como pode ver daqui da porta, mesmo que eu quisesse muito um piano de cauda eu não teria lugar na minha "humilde residência" de pouco mais de 50m², não teria onde colocar esse "elefante branco" e nem que fosse preto ou listradinho. Imagino que a criatura peluda que o comprou tomou chá de borboleta antes de sair de casa. Então lhe agradeço a gentileza de o levar de volta, peço desculpas pelo contratempo, mas vou declinar desse "mimo" e passe muito bem.
Delicadamente fui fechando a porta devagar enquanto os ouvia discutir a possibilidade de entregá-lo pela varanda com a ajuda de um guindaste.
Voltei para o sofá, tomei um gole de café morno e fiquei aguardando pacientemente a criatura de olhos amarelos chegar para termos uma conversa "pianinho, pianinho"...



quarta-feira, 18 de julho de 2018

Velhos Amigos...




                                          Velhos Amigos...
Baco é meu cachorro-neto de 7 anos. Só falta falar, talvez nem falte, tanto que resmunga reivindicando suas vontades. É um folgado, dorme pelos sofás e vive de afagos e coçadinhas na barriga que cresce cada vez mais de tantos mimos.
Outro dia saímos, ele e eu, a passear pelo condomínio, lugar agradável, arborizado e ajardinado por onde passeia várias vezes ao dia, principalmente para correr atrás de todo mundo, principalmente para os entregadores de moto causando irritação sempre . Acho que não aprecia o ronco dos motores.Mesmo ele identificando os vizinhos, ele late enlouquecido para "conversar" em latidos. Acho que o negócio dele é transgredir para ser visto e reconhecido, para ganhar um "oi"; atitude de muito humano que a gente conhece. "Falem o que quiserem , mas falem de mim".
Pois como eu dizia, saímos em caminhada entre o sol e a sombra, num agradável passeio quando ele encontrou pelo caminho seu amigo Agenor, um cão pastor, capa preta, um tanto cabisbaixo e desanimado.
Baco então perguntou a ele o motivo do desânimo e ele contou que estava um tanto triste, preocupado e contou que ele e mais dois amigos, o Thor e o Narciso, se reuniram para assistir pela televisão o final da Copa do Mundo na Rússia entre a França e a Croácia, só que o amigo Thor, lá pelas tantas, começou a passar mal, ele já tem quase 20 anos, não é tão jovem, e quando mais o jogo se desenrolava, um gol daqui outro de lá e Thor foi ficando ofegante até que deu um treco e desmaiou, amolecendo as longas orelhas, ficando de lábios esbranquiçados, deixando todos aflitos com o inusitado. Levado às pressas ao veterinário, foi reanimado, tomou oxigênio, soro, essas coisas que fazem na emergência. Dai quando ficou melhor e mais fortalecido  explicou que como ele era multirracial, se identificava com os dois times como pátria dele e foi ficando angustiado em torcer ora por um time ora por outro, assim acabou enfartando. Agora está em repouso e tratamento. Aliais estou indo visitá-lo vamos?

E lá foram os dois amigos visitar o amigo torcedor indeciso... ;)

quarta-feira, 20 de junho de 2018

A Viagem Insólita



                                    A Viagem Insólita
O frio e a chuva batendo na janela me levaram a dormir cedo.
Afundei a cabeça nos meus travesseiros de penas de ganso, me cobri com minha mantas macias, adormeci como um bebê e sonhei que viajava num submarino, ou numa nave das profundezas do oceano.
Para melhor apreciar me sentei bem à frente, diante de uma enorme janela, na esperança de ver muitos peixes e até, por que não?, um monstro marinho com tentáculos e olhos enormes, ou talvez um olho só como aparecem nos filmes?!
Bem, já comecei achando  que a viagem era mais escura do que aparecem nos filmes, talvez o holofote à minha frente não fosse dos melhores, de boa qualidade e potência de foco, dai que fiquei mais atenta ainda ao que via mesmo o cenário não me agradando e a cada centímetro que avançávamos fui ficando cada vez mais desestimulada a continuar aquela aventura sinistra.
De repente dei de cara com uma ervilha e logo atrás um grão de milho que me pareceram enormes.  Tudo boiando num caldo semi transparente, de cor indefinida.
 - Zeus! - gritei.  Devo está num planeta de gigantes. - pensei.-  Mas continuamos a missão e vi também um grão de feijão, uma uva passa e uma folha de salsinha baterem no visor. Dai foi demais e me recusei a continuar.  Então pedi aos gritos que parassem a viagem que eu queria descer, até porque um alto falante avisava aos berros que a nave estava saindo do estômago e continuaríamos  seguindo o roteiro, primeiro passando pelo lado da vesícula biliar, que por sinal ostentava uma pedra que mais parecia uma pérola, e depois seguiríamos viagem em direção ao duodeno ou seja lá o que for que vem depois.
É claro que acordei em desespero e fui correndo tomar um sal digestivo, pois acho que alguma coisa que comi no jantar não me caiu bem...





sexta-feira, 1 de junho de 2018

Reunião de Condomínio


                                   Reunião de Condomínio
Há duas noites passadas dessa semana houve reunião de condomínio e como estava indisposta, resolvi não ir e até passaria uma procuração para a minha vizinha de andar responder por mim caso assim fosse necessário, confiando nos deuses por que a velhinha já caminha para o Alzheimer à passos largos e sei lá o que poderia resolver em meu nome, mas como não me sentia em condições de ir pensei nela que jamais falta a uma reunião.
Mas quando me conduzia à porta dela, Otávio se interpôs me dizendo que iria no meu lugar. Dai entrei em conflito, pois não sabia qual seria o meu pior representante, mas por conta do adiantado da hora da reunião resolvi dar a vez para o Otávio com a promessa de me relatar cada item da discussão com suas reações e atitudes dos condôminos.
Otávio saiu para a reunião que em segunda chamada se iniciaria impreterivelmente as 20h, dez minutos antes e retornou quinze para a meia noite febril, com os olhos arregalados e mais amarelos que nunca, desgrenhado e gaguejando, me garantindo que nunca mais faria parte de tal evento.
Depois de um chá forte de erva doce e Capim Cidreira, enrolado no cobertor de estampas de asas delta e gorro de aviador ele me relatou o que aconteceu na reunião:
- Olha só, quando cheguei tinha duas ou três pessoas atentas em olhar o celular que nem me viram entrar e nem responderam o meu boa noite. Os que presidiriam a sessão ordinária, e a palavra deve ser bem adequada, arrumavam o projetor de imagem e demais badulaques sobre a mesa de plástico coberta com toalha de renda, puro mau gosto, diga-se de passagem, também me ignoraram solenemente. Quando faltavam dois minutos chegou uma avalanche de "cinco mil pessoas" que foram se colocando nas cadeiras e fazendo o maior barulhão, já que cadeiras plásticas são para beira de piscina ou para serem usadas em lugares fechados por pessoas educadas. A turba também chegou ignorando uns aos outros, nem dando "boa noite cachorro!". Em seguida foi aberta a sessão com resmungos da maioria, ninguém prestava atenção, todos falavam juntos e sempre reclamando que nunca eram atendidos em suas reivindicações e que só sabiam cobrar cada vez mais; essa frase foi repetida por todos e aplaudida por unanimidade. Duas senhoras muito falantes, com voz de professora de crianças, falavam três tons acima do necessário aturdindo e estremecendo as minhas orelhas, outras duas trouxeram tricô para não haver desperdício de tempo, imagino que vivam desse trabalho.
Lá pelas tantas, os ânimos foram ficando acirrados e um condômino chamou um outro de ladrão e as mulheres começaram a discutir e até se atracaram aos gritos rolando pelo chão. A Senhora do Tricô ameaçava furar o olho da que brigava com a amiga dela, na verdade eram amigas de porta. A "homarada" não dava conta de soltar as duas e retirar a do tricô de cima também e a polícia foi chamada. Fomos todos parar na delegacia e a do olho furado para o hospital. Realmente não entendi para que fazem reunião de condomínio. Ninguém se conhece e nem querem se conhecer e os que se conhecem não se toleram. Ninguém chega nunca à um consenso!?
Eu em?...
Fomos dormir que era o melhor a fazer...


terça-feira, 29 de maio de 2018

Bom dia Amigos



                                                      Bom dia amigos.
É triste constatar que está tudo devagar e quase parando.                                   
Que continuam espocando notícias alarmantes, e vídeos falsos para desestabilizar os bem intencionados e que querem um Brasil bom para todos.
O fogo do poder constituído continua na quebra de braço, minando por baixo.
O povo reivindica por um lado, melhores "tudo", e os imbecís do "meu pirão primeiro" vão minando as forças, se aproveitando e tirando o melhor proveito, sem se importar com os próprios netos e as gerações que virão.
Quem tinha ou tem grana vai estocando alimentos, quem não tem se dane! Ninguém pensa que o outro come, pra que pensar?
Ainda que quem mora na ilha dá para ir pescar num canto qualquer, pedir um peixe ao pescador para matar a fome, pegar um berbigão e comer, e quem não mora? Quem está lá no interior e não tiver onde comprar ou buscar na roça? Abre a boca para o vento, é só o que lhe resta...
E o pessoal que não vai na padaria se não for de carro? O que isso, nasceram com as quatro rodas nos pés? Será que nunca andaram de ônibus ou a pé? E a energia acumulada nas academias e nas orlas e jardins, para que serve? Não podem guardar o carro na garagem um pouco? Eu andaria de taxi, se não pudesse me misturar com a plebe, até eu realmente precisar com urgência me locomover com o meu carro.
Difícil constatar que estamos rodeados de pessoas egoístas, egocêntricas e ignorantes, mas o que nos resta fazer? Fazer o certo e dar exemplo.
A baderna está estabelecida, estão medindo forças.
Não faço a mínima no que vai dar isso, ou não vai dar em nada, porque o ser humano neste estágio evolutivo não é fácil, só pensa nele. Mas daqui vou orando para que consigamos desenroscar o Brasil dessa tramóia absurda. 
Que vençam os bons!!!


sábado, 12 de maio de 2018


                            Mãe, família; tudo de bom
É uma correria geral, um entra e sai de lojas, cochichos e conversas sorrateiras pelos cantos, agora pelas redes sociais, entre os filhos e pais.
 É mais um Dia das Mães que chega, assim como o Natal, Páscoa e dia dos Pais e dos Namorados. No caso do dia das Mães, que por viés se estende para Sogras e Avós, é sempre no segundo domingo de Maio no calendário anual de eventos, mas desde o dia primeiro as lojas já anunciam os últimos modelos de eletrodomésticos em todas as cores, sofás, armários e aparelhos de televisão e objetos decorativos. A mãe não paga o passaporte para o Parque temático se levar os cinco filhos dela e os enteados. Sem comentários...
 Não vi nenhuma loja de carros sugerindo um lindo modelo para a rainha do lar. Parece que a imaginação fica por conta do freguês mesmo, que apesar de não ser filho de chocadeira nem sempre vê a mãe como uma pessoa com vaidades e sonhos a realizar no seu universo feminino, dai todo ano a idéia é a mesma e as sugestões também. A bem da verdade, vi que agora oferecem como novidade, um dinheiro em papeis da Previdência e Capitalização para ser resgatado em 60 meses (!) desde que o filho não se esqueça de pagar as parcelas, obvio, ou seja; a mãe vai receber o seu presente daqui há cinco anos!!!!
Mas reconheço que existe um outro seguimento que vê e já reconhece que a última coisa que a mãe quer nesse dia é um liquidificador ou uma sanduicheira que apita quando o pão fica pronto, eles oferecem opções de roupas bem femininas, cosméticos e coisas inúteis, que é o que mãe gosta mesmo. Mãe que é mãe não quer nada que tenha alguma utilidade além de torná-la cheirosa.
Mas o que mais me impressiona nesses dias é que no dia seguinte, na segunda feira, depois de almoço de domingo especial, flores em profusão, presentes e presentinhos, tudo volta à rotina e aos trilhos do cotidiano onde a rainha do lar é que sabe onde estão as coisas, sabe da agenda de todos e resolve todas as paradas. Será que toda aquela indulgência e amor declarados em prosa e verso permanecem? Espero que sim.
Mas finalmente chega o segundo domingo de maio e já não tenho mais lágrimas de tanto relembrar a maternidade em vídeos e declarações de terceiras , textos e interpretações gaguejados nas vozes infantis declarando seu amor infinito.
Eu realmente me emociono de verdade. É verdade. Mas não vejo a hora desse dia passar e eu poder respirar aliviada.
Eu explico: é que eu sinceramente acho um exagero de elogios, uma over dose de predicados que vão nessas homenagens que me constrange.
Desde que o mundo foi criado que as mães de todas as espécies existem. Todos os seres nascem de alguém, de uma matriz.
São mulheres, fêmeas, e seres sexuados com capacidade de procriação ou de criação por adoção. Tudo natural e tão normal, que não entendo esse espanto no mês de maio!?
Os seres de boa índole, o serão, independente de homenagens, porque provavelmente são amadas, tratam bem, com carinho e amor incondicional suas crias o ano todo; é natural ser assim para eles, e assim será pela vida toda, pela eternidade passando de mãe para filhas o exemplo e depois, com certeza, receberão o mesmo tratamento na velhice.
Assim, eu declaro publicamente, que dispenso os possíveis elogios; pois eu é que sou uma privilegiada dos filhos que recebi, aliás acho que se Deus pedisse antes o meu currículo para me dar tal incumbência, teria visto que eu não tinha a menor competência para a função, mas já que Me confiou assim mesmo, vou tentando acertar.
Obrigada Senhor, pelos "pacotinhos" de Felicidade que me deste um dia para cuidar e
que guardavam a mais bela semente dourada, com todo o potencial de serem as mais lindas pessoas.
Sou muito feliz por ser Mãe, mas dispenso elogios, por favor, fico constrangida de verdade. ♥*♥

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

Com que roupa?


                                                       Com que roupa?
Há dias que Otávio passa horas cabisbaixo, pensativo, distraído mesmo.
Dai que hoje lhe perguntei o motivo, cheguei a pensar em paixão, mas não, depois de relutar em não me dar qualquer satisfação, como é do seu costume, ele me disse que os dias estão passando correndo e ele ainda não se definiu qual fantasia usar neste Carnaval. Foi convidado com deferência pelas agremiações para comparecer aos desfiles como destaque e não sabia o que vestir.
Realmente ele estava numa sinuca de bico, seja lá o que isso queira dizer, acho interessante a frase e a comparação. Dai naquele meu jeito delicado de ser sugeri: "por que não vai de Pierrô ou Arlequim"? E ele fuzilando me respondeu sem paciência: "muito criativa você!" e eu continuei então: "Colombina"? Bem não vou repetir o palavrão para não tirar a nobreza da pessoa.
- Mas o que tem de mal, essas fantasias clássicas da folia, não entendo?!
- Acontece que eu preciso de uma fantasia impactante, que seja algo que cause entende?
- Que cause... sei...
E me botei a pensar com meus três neurônios e posso garantir que nenhum deles é folião. Chegou a me dar sono de tanto imaginar roupas diferentes cheias de cores, penas e brilhos e possibilidades mais rústicas.
- Quem sabe uma fantasia de rato?
- Rato, enlouqueceu é?! Imagine um gato totalmente "engolido" por um rato, que coisa mais patética!
- É que pensei no impacto que iria causar...
- Sim, derrocada explícita e assumida da minha raça, se desde que o mundo é mundo os Gatos são superiores em estratégias aos ratos, dai eu sou literalmente engolido por um e vou sair pulando de alegria, que insanidade, bem se diz que quem não gosta de samba bom sujeito não é, é ruim da cabeça (o teu caso) ou doente do pé (também).
- Pois é, mas não gosto de te ver assim triste e queria ajudar...
- "Mais ajuda quem não atrapalha"... ditado perfeito para a sua pessoa.
Fui para o meu quarto chateada e acabei ficando contagiada pelo o baixo astral dele, querendo ter uma grande idéia para alegrá-lo, afinal é carnaval!
Mil figuras fantasiadas me passaram na mente como um desfile de carnavais passados.  Resolvi ver no Google alguma coisa, mesmo que discreta e fácil de confeccionar à toque de caixa como era o caso, mas todas eram muito trabalhadas e estranhas a partir dos títulos à elas atribuídos:  "Ave do Paraíso Apaixonada  e seu coração de cristal azul", "Galo da montanha do Himalaia transmigrado para o Sertão Brasileiro", " O Faraó que roubou o brilho das estrelas mortas"... e por ai continuava o séquito de estranhas figuras com seus títulos bizarros parecendo de teses a serem defendidas diante de Bancas, mesmo reconhecendo que no seu trabalhado eram belíssimas.
Resolvi fazer um café para raciocinar um pouco. Enquanto o café escorria na cafeteira pensei que ele poderia ir vestido de Grão de café e fui correndo dar-lhe a boa notícia. Era uma fantasia razoavelmente fácil de fazer, se tivéssemos material para a execução, claro, tipo espuma em metro na cor marrom escuro, que mais se aproximasse daquela semente, mas não temos nada desse tipo em casa, talvez um carretel preto e um branco de linha e duas agulhas para uma emergência, um botão caído, um rasgo e é só...
Toda animada fui falar para ele o que eu pensava ser uma brilhante idéia. Nem me deixou acabar de explicar com detalhes e já me fuzilou, mais uma vez com seus olhos amarelos, daí tive a grande idéia, ou pelo menos me pareceu ser  naquela hora.
- Vista-se de febre amarela! Está na moda, só se fala nela e  seus olhos que já são amarelos vão sobressair, seu pelo é grande e escuro daí para imitar um macaco é um pulo hahahah...
Não resisti a gargalhada final e quase levei na cara com a almofada que veio voando na minha direção.
Voltei correndo para a cozinha enquanto ele batia com a porta dos seus aposentos duas vezes deixando um bilhete do lado de fora avisando que não estaria para ninguém, nem se o Rei Momo e suas princesas viessem em pessoa buscá-lo para as folias momescas,  e que só o acordasse na quarta feira de cinzas depois do meio dia, e mais não disse.

Vai um cafezinho aí?

quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

Sera?


                                            Será?
Vocês devem ter notado que sumi daqui por uns dias, mas foi por um bom motivo;
Otávio desapareceu por um dia e uma noite o que me deixou sem chão. Fiz um Boletim de ocorrência na delegacia de desaparecidos, visitei hospitais e necrotério e sai perguntando se alguém o havia visto pela redondeza. Nada. Desesperada eu me perguntava: -Como viver sem a presença daquela alma autoritária, mandona, malandra, sem vergonha, destemida e obstinada criatura, cheia de imaginação e sem muitos princípios?  Não imagino e por hora nem quero imaginar.-
Pois bem anoitecia entre nuvens pesadas de chuva que não tardou a cair em cântaros. Era o dilúvio de Noé na versão atual onde as enchentes acontecem por conta de bueiros entupidos de garrafas e objetos plásticos e de todos os materiais imagináveis. Boiam descaradamente pelas enxurradas sofá de dois e três lugares de várias estampas, fogões de quatro bocas de cinco e até seis bocas, pneus, máquinas de lavar e geladeiras. Quilos e quilos de fraldas descartáveis sempre cheias, sacos plásticos de todos os tamanhos e cores com restos de tudo, o que me faz pensar no ser humano; que nessas horas é que a gente vê como ainda somos bem "serumaninhos".
Os mangues das redondezas expulsaram seus jacarés que saíram às ruas de bonés vermelhos reivindicando suas terras moles e encharcadas que estão sumindo a cada ano que passa misteriosamente. Hoje muitas lojas construídas na região vendem a marca "Lacoste", talvez por desencargo de consciência, sei lá.
Olhava eu pela janela que escorria lágrimas de chuva com certeza copiando meus olhos à espera do desaparecido, quando a campainha toca estridente e insistentemente.
Fui abrir a porta correndo e com quem me deparo? Sim ele mesmo em pessoa, pelo encharcado e oiriçado no último e cara de pânico estampado em cores.
Dei um pulo para traz para não ser atropelada pela criatura arregalada que foi entrando correndo, fechando as janelas e foi se esconder dentro do guarda roupas.
- Mas o que está acontecendo? Lhe perguntei entre aliviada e com raiva, muita raiva, só imaginando o que ele "aprontou" dessa vez; "Senta que lá vem história" já dizia um programa de televisão de antigamente.
Sem sair de dentro do armário, escondido atrás do casacão, ele foi me contando o que aconteceu;
"Eu sai lá fora para apanhar sol no jardim logo depois do almoço, pois era também a hora que a gatinha da vizinha também ia tomar sol e bater um papo, mas antes dela chegar aconteceu uma coisa que nem vais acreditar, o sol apagou de vez, ficou tudo escuro como noite e reparei que o mundo parou, não havia nenhum movimento, nem som e nem qualquer outro tipo de atividade. A terra parou literalmente, acho que só eu não congelei no tempo. Foi quando vi dois caras esquisitos jogarem uma rede magnética, assim me pareceu,  luminosa e cintilante sobre mim e me carregaram por um facho de luz incandescente que saia de dentro de uma grande nave, lá para dentro. Era um objeto voador enorme, um OVNI que pairava ali acima do nosso prédio e que num movimento acima da velocidade da luz  foi nos transportando pela imensidão do espaço sideral. Essa parte foi fantástica."
Nem quis interromper para não perder o juízo e ele continuou:
"Logo, num piscar de olhos, tínhamos chegado, como eu diria aterrissamos, se lá não é a terra? Bem deixa para lá. Ao descer também foi por dentro de um elevador de vidro que andava em todas as direções e nos levou para um prédio esquisito todo de vidro que só dava de ver de dentro para fora e de fora parecia quase invisível. Um mistério"
Nessa hora coloquei minha mão sobre a testa dele pois devia estar delirando, ele me ignorou e continuou contando com os olhos amarelos fixos em mim...
"Lá dentro me sentaram em uma cadeira cheia de aparelhos ao redor e rastrearam o meu corpo com um daqueles aparelhos com cara de barbeador elétrico que lê código de barras, sabe? Aquilo rastreou tudo o que eu tenho de mais intimo enquanto numa tela aparecia cada detalhe, teve uma hora que me indignei com a violação de intimidade, mas minha boca estava com um sensor pregado sabe se lá para quê?!"
 - Quis lhe dizer que era para analisar as bobagens que ele falava, mas me calei e ele foi falando...-
 "Após toda aquela barafunda de coisas acontecendo ao meu redor, me retiraram o sensor da boca e apareceu um letreiro perguntando se eu estava com fome. Eu quis dizer que não, pois nem imagino o que esse povo come, mas eles acenderam na minha frente uma tela com o programa da "Anamariabraga" com o louro José e tudo. Ela cozinhava alguma coisa muito deliciosa, pois o cheiro impregnou a sala acendendo a minha fome que naquela hora era igual a dos homens do começo do mundo. Daí a curiosidade foi maior que a fome e perguntei a eles, como era que a imagem deles tinha cheiro? Essa tecnologia a terra ainda não atingiu. E eles pacientemente me explicaram que há muito eles não usavam mais tela física como a conhecemos na Terra e que o uso da holografia tão trivial entre eles, lhes permitia inserir focos intermitentes de luz em códigos específicos de forma subliminar que trazia ao cérebro a lembrança perfeita dos cheiros que se conhece, assim ao ver a imagem o cérebro conecta o cheiro à imagem e lembrando intensamente "sentimos" o cheiro perfeito como se estivesse ao vivo. Isso não é incrível? Só por isso valeu ser abduzido"...

Comecei o ano bem com esse cara cheio de imaginação... ;)



quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

Ressaca


                                                                       Ressaca
Agora que já entramos no terceiro dia do ano vou contar como foi o Réveillon aqui em casa já que aguardava o desenrolar dos acontecimentos.
Logo pela manhã do dia 31 Otávio saiu cedo carregando uma enorme sacola.
Todo esbaforido me disse que naquele dia trabalharia mais que em todos os outros 364 que haviam se passado em 2017, agora no passado. Acreditei, claro! SQN.
Enquanto eu arrumava as minhas coisas e pregava as últimas lantejoulas do meu vestido branco e do adereço de cabelo, as horas se passaram e ao escurecer me dei conta de que Otávio, o meu companheiro de moradia, não havia voltado até aquela hora e eu até me preocupei por uns instantes, porém como ele era sempre auto-suficiente em absolutamente tudo, e não permitia interferência no que faz ou decide fazer então achei por bem não me preocupar até por absoluta falta de tempo, pois eu havia combinado de me encontrar na praia com algumas pessoas e estava em cima da hora.
Passado um tempo eu já havia me esquecido de tudo mais que não fosse a festa de despedida  de mais um ano, finalmente entrou o Ano Novo com a barulheira de sempre, os fogos explodindo ao som de uma música que mal se ouvia no meio do foguetório, não sei porque a colocam, brindes abraços e promessas que serão esquecidas dez minutos depois, isso sendo generosa e venenosa, vem depois o ritual de molhar os pés no mar e volta para a areia para  que fiquem parecendo à milanesa e que depois só vai sair tudo mesmo debaixo do chuveiro. Essa parte me incomoda um pouco.
Canta-se  a velha música ♫♪'adeus ano velho, feliz ano novo"...♪♪♪♫♫♪ e todos são felizes, pelo menos naqueles momentos...
Quando acordei no primeiro dia do ano o sol já ia alto. Vesti minha roupa de banho e voltei para a praia com toda animação que o dia pedia. Senti falta do Otávio; nem tive oportunidade de abraçá-lo pela passagem do ano, mas tudo bem, ele era bem "velhinho" para se cuidar, e com certeza, encontrou uma namorada gatíssima bem ao gosto dele e ficou por ai.
O primeiro dia terminou com muita gente na praia se despedindo do sol que havia sido bem generoso.
Amanheceu o segundo dia e enquanto me preparava para trabalhar ouvi a chave virar na porta e fui ver; imagine se não era a pessoa?!
Pois é, nem eu acreditava no que via; diante de mim estava uma criatura esgadelhada, com cheiro indecifrável, com restos de confete grudados por toda parte, vestindo uma roupa que já foi branca, totalmente encardida de areia e manchada de várias cores e substâncias que nem era bom investigar, calçando um pé de "havaiana" de marca desconhecida e que com certeza não saiu aqui de casa, barbado, com olheiras abaixo do queixo, que entrou carregando uma mochila velha que com certeza, também não saiu aqui de casa, que se arrastou até o sofá desmaiando literalmente.
- Mas o que significa isso, Otávio dedeus?!
Perguntei aos gritos o que o fez cobrir as orelhas escondendo os ouvidos enquanto me mandava falar baixo.
- Como é que você sai daqui dia 31 e só volta hoje desse jeito? Por onde andou até agora?
Eu não conseguia parar de fazer perguntas diante daquele trapo de pessoa...
Foi ai que com muito sacrifício, sentou-se e começou a falar lentamente com a voz ainda arrastada:
- Eu quis fazer tudo o que ensinam para fazer na virada do ano, para dar sorte, trazer prosperidade, o amor, a saúde, a alegria, enfim, dai que me vesti de camiseta branca com a palavra PAZ em brilhos de ouro para atrair riqueza, bermuda branca,  cueca vermelha, com detalhes amarelo e azul, e chinelo prateado. Até ai tudo bem, mais começou a parte  das coisas de comer: comi um detestável prato de lentilha, 7 sementes de romã, 7 bagos de uvas verdes enquanto dava 7 pulos pra trás para abandonar as energias ruins e depois 7 pra frente para me envolver nas boas, comi carne de porco que fuça para frente, seja lá o que isso queira dizer, com farofa de dendê que me deu uma dor de barriga louca. Comi bacalhau por  que me garantiram ser muito bom para atrair dinheiro, já que é peixe e o "Cem Real" é um peixe, acho que é uma Garoupa, mas isso não importa agora. Também guardei três folhas de louro na carteira que perdi em algum lugar, quando consegui me levantar depois de comer tudo aquilo com champanhe, cidra e guaraná Jesus, para garantir um bom emprego bem remunerado, eu fui pular as sete ondas, foi quando Iemanjá "arrenegou-se" com alguém ou com aquilo tudo e me jogou um daqueles barcos cheios de presentes nas ventas o que me fez cair no mar e quase me afogar. Custei a ser atendido naquele alvoroço, pois achavam que eu estava "recebendo" alguma entidade e eu me batendo entres as marolas e bebendo litros de água, quase me afogando literalmente. Com a cara ensanguentada me levantei dali tonto de tudo e fui para a areia. Algum abençoado que me viu sangrando, me levou ao posto de atendimento e  só acordei agora de manhã...

Feliz Ano Novo!
Foi só o que pude falar enquanto ele se dirigia para o chuveiro...