domingo, 23 de agosto de 2015

Areia para Ampulheta.

                                          Areia para ampulheta.
O homem de terno preto, sóbrio nos movimentos, como que calculasse cada um deles para melhor administrar o tempo colocou no centro da mesa redonda uma das quatro ampulhetas que permaneciam ao seu lado, cada uma correspondendo ao quarto de hora, meia hora, quarenta e cinco minutos e hora inteira. 
Na mesa onde circundavam 12 membros também vestidos de terno preto, tinham diante de si os doze números correspondentes da hora e aguardavam em silêncio, sentados em cada cadeira o início da contagem do tempo para começarem a reunião.
Falando de forma pausada e quase metódica o que representava o número 12  deu inícios aos trabalhos falando:
- Iniciemos como de hábito a reunião com a passagem da folha de assinaturas de presença o mais rápido possível para iniciarmos a sessão. 
Quinze minutos para essa função é suficiente e em seguida partiremos sem perda de tempo para o assunto pertinente à pauta do dia, a areia e a escassez dela. Está faltando areia no mercado!
Assim que todos assinaram a folha de presença ele virou a ampulheta, agora a de 60 minutos, ou seja; uma hora inteira para discutirem o assunto do dia.
 - Rápido que o tempo urge! Todos prontos? Sem perda de tempo cada um dê o seu parecer sobre o preço da areia das ampulhetas, a falta dela no mercado e o custo da confecção etc.
- A areia está em falta no mercado e o custo pela última hora! O preço no mercado negro já parelhou ao oficial por conta dos conflitos na Grécia.
Falou prontamente o de número um.
- Mas a Grécia nem tem areia...
- Cale-se! Não seja ignorante número três.  Todos os problemas da Grécia ou de qualquer outro lugar, mesmo onde só exista gelo, neve e que tais, reflete nas areias das ampulhetas.
Falou com rispidez o numero onze por se achar quase a altura do maior deles, na esperança de um dia substituí-lo.
- Não concordo!
replicou o número 3 timidamente.
- Você não tem de concordar, isso é do mercado mundial, daqui a pouco teremos que fechar as portas por falta de areia!
- Cavalheiros o tempo está passando e vocês discutindo o gotejar das horas e com isso estão perdendo segundos preciosos.
-Me permitam interromper e já interrompendo, podemos pensar numa nova ampulheta com outro material que não fosse areia, o que acham?
Falou o pratico numero 6.
-Oh!!!!!!
Exclamaram todos ao mesmo tempo como se ouvissem um sacrilégio, o espanto foi geral das vinte e quatro horas, quer dizer dos doze membros da reunião.
- Como assim? 
Falou o que correspondia ao número 12 que presidia a sessão.
- Bem, eu pensei que poderíamos estudar outra possibilidade e desatrelar a nossa produção do mercado de areia e saíssemos desse pensamento antigo de se fazer ampulhetas apenas com areia...
- Continue!
- Não sei mais... apenas tive a idéia.
falou timidamente.
-Você só raciocina um quarto do pensamento mesmo, né? Poderia pelo menos ter uma ideia completa ?
O que correspondia o numero 3 se encolheu um pouco mais na cadeira e nada mais comentou até o final da reunião, mas o numero 9, o seu oposto, gostou da ideia e ficou matutando em silêncio e depois sugeriu:
- Poderíamos tentar a farinha de mandioca já que a nossa líder maior, aquela que se acha nossa representante, saiu por ai outro dia mesmo saudando a mandioca e proclamando que  a mandioca é uma maravilha, é isso, é aquilo...
 E colocou seu parecer na reunião sem tirar os olhos da ampulheta que estava no centro da mesa observando que faltava pouco para encerrar os trabalhos da hora.
Em seguida e de maneira veemente o numero 12 falou:
-Fechou! Achei a ideia viável e chego a admitir que é genial. Podemos experimentar. Senhores, para a próxima reunião eu quero todos os detalhes, desde o plantio da dita cuja até a farinha propriamente dita. Vamos levantar o preço da farinha de mandioca no Mercado Europeu e tudo mais.
 Falou o número 12 com o peito cheio de orgulho por presidir tão n(p)obre sessão.

- Acabou a areia de cima, vamos virar a ampulheta; um, dois três, virei!!!



23 de agosto de 2015.

Um comentário:

  1. Este seu texto é o que se pode chamar de uma verdadeira viagem no tempo... gostei muito, Clotilde. Surreal esta sua assembleia, coroada pela justa consagração da mandioca! Abraços.

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