sábado, 26 de novembro de 2016

Como não perder a cabeça?

                                      Como não perder a cabeça?
Gente, vocês que me conhecem e sabem que a vaidade não é meu forte.
Sou do mais confortável e deixo a elegância para quem gosta e pode...                                 Não sou de moda e nem de arrumar unhas com frequência. Corto rente e deu!!!
Daí que semana passada precisava cortar meu cabelo para ir a um aniversário de 15 anos e fui deixando, esquecendo desse detalhe, até que na manhã do dia me deparei com as madeixas caídas nos olhos e pensei alto: 
-Uauuu não cortei o cabelo!-.
Em princípio já tenho consciência de quem vai reparar numa velhinha num aniversário de quinze anos se ela não subir na mesa e ameaçar tirar a roupa? O que não é meu caso, pois mal consigo subir degraus imagine numa mesa.
Daí que no sábado, pela manhã fui comprar frutas e no Supermercado que fica entre lojas, praça de alimentação, e está mais para Shopping, já que possui de tudo lá dentro, banca de jornal e revistas, Farmácia, várias lojas, banco, lotéricas etc. E também um salão de cabeleireiro onde já cortei o cabelo outras vezes com profissionais diferentes.
Entrei destemida e corajosamente e perguntei se havia vaga para aquele horário, já que não queria voltar mais tarde por preguiça mesmo.
Daí  que a atendente me indicou a última cadeira a esquerda e lá fui eu. 
De repente parou ao meu lado a pessoa que iria “fazer a minha cabeça”.
Respirei fundo e todo o meu conhecimento em psicologia e análise comportamental, gestual e etc  se apresentaram num painel à minha frente. 
A pessoa usava um enorme rabo de cavalo até a cintura, preto e brilhante. Vestia uma blusa de lã branca e gola alta, estava frio, e por cima uma daquelas capas tipo “inglesa” preta. Senti que faltava algo, mas só me dei conta na saída; a Bíblia debaixo do braço! Com todo o respeito mas a figura é inconfundível.
Nada a ver com as pessoas que trabalham em salão, quando costumam ser bem exóticas e personalizadas por cortes e tinturas.
Tudo bem, respirei fundo e me entreguei a Deus e me lembrei do Salmo; “ Ainda que eu ande pelo vale da sombra da morte, não temerei mal algum, porque Tu estás comigo”. 
Calmamente ela abriu a minha frente uma maleta cheia de tesouras escovas e utensílios de trabalho, me vestiu uma capa de tigresa  deitei minha cabeça no cadafalso e partimos para os finalmentes.
Com a delicadeza de uma cirurgiã ela pegava de quatro em quatro fios da minha vasta cabeleira e media de lá para cá e daqui para lá para ter certeza de como cortar, vai que dá errado?
La pelas tantas, estávamos em silêncio e ela exclamou sem mais aquela,
-“sim, eu vou ler tudo sobre Davi!”
E eu: - ...hã, falou comigo?-
É que eu gosto muito de ler e agora estou me especializando em conhecer tudo sobre Davi.
- Hã sim, deve...
Falei enquanto pensava:
Eu como ela começaria por apreciar a de Michelangelo...
Pisando em ovos, acho que era a primeira vez que tinha uma cabeça nas mãos para fazer o que quisesse, cortou fio a fio durante um tempo que me pareceu interminável. Quando acabou apreciei que cortou o mínimo, mantendo o corte. O que tirou de cabelos não dava um par de sobrancelhas. Ufffa!!!
Mas eu sou especialista em fazer isso, talvez porque minha mãe cortou o meu cabelo a vida toda e da maneira que queria, até o dia em que cheguei na casa de meu irmão e ele me perguntou quem havia cortado e eu lhe disse que foi a nossa mãe e ele me disse ;
- “Não a deixe mais fazer isso, está todo torto, e mamãe já não diz coisa com coisa (ela realmente ficou depois com Alzheimer) não sabe mais cortar cabelo!”
No começo deste ano, as véspera de embarcar para Paris eu fui cortar o meu cabelo, pela terceira ou quarta vez, com uma pessoa que me foi indicada por uma amiga. por sinal o único que acertou nos últimos tempos.
Ele é professor e anda pelo Brasil todo dando cursos e quando vem visitar a irmã na cidade, ele telefona para algumas clientes e tira uma tarde para atender, daí que minha amiga me avisou que ele estaria na cidade e agendei numa tarde ensolarada no pequeno salão de amigos dele.
Lá chegando como sempre, ele gentilmente me atendeu e me levou para o salão superior e convidou a sentar diante do espelho e colocou a capa.  E sempre conversando, me disse novamente que o meu cabelo é muito fino e pouco e não deve ser cortado molhado sob pena de não ficar bom. Essa eu aprendi.
Então rapidamente e com perícia ele dividiu meu “farto” cabelo em oito "chiquinhas" e em seguida começou a cortar pelo lado esquerdo, e quando estava bem empolgado ouvimos uma gritaria lá embaixo. Na mesma hora todos os que estavam na sala desceram em desabalada carreira e eu fiquei com meia cabeça cortada e as quatro “chiquinhas” restantes com cara de tola me olhando no espelho.
A gritaria dizia que o cabelo estava caindo com a hidratação que fizeram nela, que ela estava em depressão e que a mãe havia dito que o cabelo dela estava horrível e ela veio quebrar tudo e aos gritos quebrou mesmo. Daí fui olhar e desci a escada até uma parte em que dava para ver o estrago e foi quando vi o meu cabeleireiro enrolando uma toalha no braço todo ensanguentado da mulher, que no surto havia se cortado. 
Prontamente ele a acalmou e a convenceu de levá-la ao pronto socorro enquanto a polícia chegava para lavrar a ocorrência. 
Eu voltei para a minha cadeira dando "graçasadeus" que não tinha outro compromisso e aguardei acalmar os ânimos e ver no que ia dar.
Daí veio lá de baixo uma senhora trêmula e tímida pedir mil desculpas pelo inusitado e avisar que o rapaz havia saído para socorrer a mulher e não tinha hora para voltar e sendo assim ela iria terminar o corte e me convidou a lavar o cabelo, pois ela só sabia cortar cabelo molhado. !!!!
- “Fazer o quê?”- eu pensei; pior é sair assim com meia cabeça cortada e meia desfiada e sem corte e de novo entreguei minha cabeça ao cadafalso e fui para Paris com o cabelo todo torto... Mas é claro que em Paris ninguém nota essas coisas...


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