Quem sou eu

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Campinas , São Paulo , Brazil
Tenho mais de setenta anos, mãe de quatro e avó de seis, bisavó de dois e uma saudade eterna. Leonina humor sarcástico e irreverente. Gosto de ler, escrever, pintar, costurar, fotografar, não necessariamente nessa ordem. Gosto de observar e ouvir pessoas, suas histórias de vida que para mim são sempre interessantes e ricas de ensinamentos e só aumentam o meu conhecimento com respeito a viver. Acho bom e interessante olhar a nossa volta. É sobre isso que gosto de escrever.Gosto de cinema, assistir seriados na TV, teatro, viajar,passear,viajar,passear... conhecer lugares e bater papo sem compromisso. Gosto de olhar o mundo com olhos curiosos de quem acabou de chegar e quer se inteirar do que está "rolando".O nome escolhido "Espírito de Escritora" não tem a pretensão de mostrar aqui "grandes escritos" tirados das entranhas da sabedoria mais profunda e filosófica de alguém "letrado" ou sábio. Simplesmente equivale a dizer "escrever com alegria","escrever com espirituosidade".Tudo o que escrevo já está escrito dentro de mim, do meu eu mais profundo, só boto para fora... sei lá... Este é um lugar de desabafo e de reflexões minhas."Os bons que me sigam". (sabedoria do Chapolim Colorado)

quarta-feira, 24 de junho de 2020

É dia de São João

                             É dia de São João

Eu saia do banho quando o interfone tocou. Era o porteiro avisando que o caminhão de entrega havia chegado e era para eu descer e receber a encomenda.
Antes que eu a encontrasse a “criatura peluda”, ao ouvir a minha conversa com o porteiro desceu na frente, de elevador. Eu corri atrás, de toalha enrolada na cabeça, de roupão de banho e chinelos de unicórnio desci pelas escadas pulando os degraus de dois em dois como uma rã assustada.
Realmente era um caminhão carregado de toras de lenha...
- Otávio!!! O que isso significa?
Gritei a plenos pulmões para ser ouvida na Cochinchina.
É claro que o Condomínio desceu inteiro para ver do que se tratava.
Em poucos minutos um grupo se formou e foi se mobilizando para denunciar a derrubada de árvores para o IBAMA, à Guarda Florestal e umas três ONG’s defensoras da Mata Atlântica e Amazônia.
- Rapaz; antes de devolver essa carga para onde veio, você vai me explicar para que comprou um caminhão de toras de madeira?
- Tudo bem, fica fria que eu explico; primeiro é bom que se diga que essa madeira é de reflorestamento, isso quer dizer que pode ser comercializada sem problema, depois, eu só queria fazer uma festa de São João com tudo o que tem direito; fogueira, quadrilha, milho e batata doce assados na brasa, amendoim, pipoca e tudo mais. Não sei por que tanto estresse!? Afinal estamos no mês de Junho. Eu em?

Pior é que essa criatura peluda e rebelde ainda têm “muita lenha para queimar”.

Vai uma batata doce com melado ai? Ou seria melhor encher a cara de quentão para desestressar?



quarta-feira, 17 de junho de 2020

Uma Boa Ideia; será?


                                 Uma boa ideia; será?
Otávio acordou cedo e veio me chamar para arrumar a sua mochila.
- Onde você pensa que vai agora, logo cedo? – Lhe perguntei sonolenta enquanto fazia um café para acabar de acordar nesse dia molhado e frio depois de uma noite chuvosa e gelada. –
- Preciso resolver um negócio urgente urgentíssimo!
- Só arrumo suas coisas se me disser antes o que pretende fazer...
- Vou fechar a compra de uma plantação de cana de açúcar que está em ponto de colheita.
- Para que alguém vai comprar uma colheita de cana em meio a uma Pandemia com direito a quarentena interminável e isolamento social, vai vender garapa pela internet?
- Que garapa o quê?! Depois que metade da população do mundo virou diabética e a outra metade faz dieta de calóricos, ninguém mais vende garapa, não dá para sobreviver vendendo garapa. Já andei me informando sobre tudo o que se refere à Cana de açúcar e seus derivados.
- Então vai fazer combustível?
- Não mulher, parece que bebe. Não vê que a hora de ganhar dinheiro agora, e é produzindo álcool em gel? O mundo todo está consumindo loucamente álcool em gel, ou “alquingel”, como se fala por ai, e eu não vou perder essa oportunidade...
- Mas você não acha que já tem gente demais produzindo “alquingel”, pararam de fazer até açúcar, acho até que nem tem mais para vender nos mercados, está ganhando do papel higiênico...
- Mas eu não vou fazer um “alquingel” qualquer; já pensei e planejei tudo. Vou fazer em vários perfumes: de Alfazema, Canela, Cravo, Limão, Maçã verde...
Enquanto eu tomava o meu café olhando pela janela e vendo o dia clarear fiquei pensando que até que podia ser uma boa ideia...
- Vou voltar a dormir e daqui a dez minutos eu levanto de novo para começar o meu dia e apagar este momento de delírio, acho que sonhei isso...
Vai alquingel “Cheiros e Sabores” ai?

sábado, 23 de maio de 2020

Sessões Oníricas

                                    Sessões Oníricas
Hoje acordei muito cedo, passava um pouco das cinco e meia da madrugada. Olhei pela janela e vi que nem o galo apareceu para acordar o sol.
Pensei com minhas pantufas de unicórnio, o que eu faria àquela hora tão cedo? O sono se escafedeu entre as nuvens escuras do horizonte e me avisou que não voltaria antes da meia noite.
O jeito foi ir para a cozinha passar um café e pensar na vida, na pandemia e no isolamento social. O bom é que o vírus estava sendo escorraçado com todas as honras e havia mais curados do que finados.
Diante da minha caneca rosa, cheia de café quentinho passado na hora, eu fui me deixando envolver lentamente no acordar do dia e seus sons. Um pássaro madrugador gritava bem-te-vi para outro que respondia o mesmo. Um galo acordou finalmente, mas calou na hora, talvez, tenha levado com uma “havaiana” pela crista para não acordar a vizinhança que dormia.
Ali, sonhando acordada, apreciando a natureza ainda na penumbra do amanhecer, me dei conta que a criatura peluda de olhos amarelos me observava, em silêncio como se uma coruja fosse.
- Bom dia para você também.
Falei para ele que escabelado continuava me observando em silêncio com se estivesse em transe.
- Fale para eu ter certeza que não estou vendo o seu fantasma. O que se passa?
- Tive um sonho horrível, estava mais para pesadelo...
Falava lentamente como se ainda não estivesse totalmente acordado, o que me fez passar a mão e ver se estava com febre.
- Conte o sonho então para que saia desse transe esquisito.
- Então, eu sonhei que um vírus atacou a terra...
- Outro? Mais um ninguém aguenta...
- Calma afobada, foi um sonho, se quiser ouvir fica calada...
Parou pensativo e quando eu ia mandar continuar ele me lançou um raio de olhar quase fulminante que tive de calar na hora e só ficar escutando.
- Pois é, como eu dizia sonhei que um vírus, o Capilar-vírus se abateu na terra e foi um desastre. Todos acordaram carecas, totalmente despelados, até eu me via nu circulando pelas ruas entre muitos iguais. Estabeleceu se então para o bem dos olhos alheios que todos ficassem em casa até que a pandemia se extinguisse e tudo voltasse ao normal...
- E ai?
Ai que após um período o vírus capilar foi extinto com um produto para queda de cabelo, sabe aquela teoria de que veneno de cobra se mata com veneno de cobra? Foi o que os cientistas fizeram e adivinhe? As fabricas não davam conta de fazer o produto, muitos eram falsos e não faziam o efeito esperado e as lojas e farmácias não tinham mais para vender o produto original. A china ofereceu um invento, mas acharam melhor não arriscar, pois poderiam cair mais coisas de ação indesejáveis. Nunca se sabe.
- E como acabou o sonho?
- O desgraçado do galo do vizinho cantou e eu acordei...
Tomamos mais uma caneca de café imaginando todo mundo pelado e de máscara em tempos de pandemia... 

Esse coronavírus faz “côsa”...



domingo, 17 de maio de 2020

Isolamento Social e suas Consequências

              Isolamento Social e Suas Consequências
Em tempos de pandemia não é fácil ocupar o tempo da gente e dos que convivem no mesmo espaço.
Mil coisas são criadas e inventadas e O TEMPO NÃO PASSA!
Todos os dias têm que acordar com mil ideias, mas depois de passar a “novidade” bate um desânimo “do cão”, voltamos a dormir e tentar passar o tempo como os ursos; primeiro come-se até ficar com enjoo e depois se vai dormir para o dia acabar mais rápido.
Logo após os primeiros dias precisamos tomar uma providência urgente: jogar a balança fora, se ainda houver lugar na lixeira do prédio, que até já separou parte do bicicletário para este fim: guardar as balanças até que alguém encontre esse desgraçado vírus de olho puxado e dê uma “camassada” de pau nele e voltemos a comer como gente.
Dois meses passados nesse tédio sem fim, arrumei a minha agenda assim: As segundas quartas e sextas faço a retirada de tudo que está nos armários, jogo sobre a cama e separo tudo por cores frias e cores quentes; nas terças, quintas e sábados, retiro tudo novamente e separo as listras e as bolas por tamanho e cores. Faço rodízio com as gavetas para as peças pequenas, bem pequenas e nem tanto.
A cada vez que faço esse giro na arrumação separo as roupas que não gosto mais, que enjoei e que não me cabem mais; essas são muitas, e deixo de lado para levar e deixar lá no espaço do reciclável, em caixas de papelão etiquetadas por estampas. Isso se encontrar lugar, já que o condomínio inteiro está, ou deve estar fazendo o mesmo. Agora deixo para levar as caixas na madrugada, mas essa ideia muita gente está imitando e até formando fila para o evento. E ainda quando se encontram pelos corredores mostram a língua uns para os outros por baixo das máscaras, é claro.
Este é um costume antigo que voltou à moda; mostrar a língua sob a máscara.
O pior é aquietar a criançada e gerar mil ideias novas por semana. Isso não está sendo nada fácil. Tem pais que já estão se preparando para defenderem teses a respeito dessa questão. Vão sair da quarentena com a tese quase concluída.
Aqui em casa já gastamos o repertório.
O quarto do Otávio tem um aviso bem grande de não perturbe, e não sou eu que vou encarar a fera, “de bode”, e raivosa.
O mau humor faz parte do cardápio do dia dos dois lados.
No começo ele fez, incansavelmente, todas aquelas experiências que se faz nas escolas, de plantar feijão no algodão, espalhar orégano num prato com água e com o dedo molhado de detergente dar um “susto” na erva da pizza, que por conta disso já está em falta nos supermercados só concorrendo com o papel higiênico e o “alquingel”.
Depois foi para coisas mais requintadas como fazer bebidas de alambique, aí fui obrigada a impedir tal coisa, pois não suportaria aquele cheiro de fermentação. Só por isso, pois já joguei a toalha e “sejaoquedeusquiser”...
Bem, meus amigos, vou parar por aqui, pois estou ouvindo um murmúrio estranho vindo do quarto da criatura peluda e isso está me cheirando encrenca.
Voltando...
Gente, alguém aí interessado em ficar com alguns pintinhos que acabaram de eclodir? Tenho centenas para retirada imediata e ainda acompanha um saquinho de orégano.
Ele estava chocando dúzias de ovos dentro do quarto dele sob  lâmpadas e é claro, eu não sabia...
Até quando S E N H O R ???

domingo, 26 de abril de 2020

Sete anos!


            Sete anos!!!
Dia 26 de abril; como não me lembrar daquele dia de triste despedida há sete anos? Como me esquecer que fazia sol? Como me esquecer do badalar dos sinos de alguma igreja próxima que me avisavam que era meio dia?
Desculpe-me se volto ao assunto todos os dias 26 e não poderia passar logo por este, o de abril, sem comentar ou lembrar, mas o luto tão tem prazo de validade. Pode-se esquecer qualquer coisa na vida, mas duas coisas são inesquecíveis: o nascimento e a morte de um filho (quando isso acontece, claro!).
Mas se alguém se incomodar com a minha insistência em lembrar essas coisas, dessa data e dos acontecimentos com certa frequência e insistência fique á vontade para se retirar. Eu até entendo que não gostamos de olhar as feridas dos outros, elas nos fazem recordar das nossas e só os masoquistas têm prazer em sofrer.
Eu não sinto prazer em sofrer, eu SOFRO, é diferente. Todas as mães que um dia tiveram que devolver seus filhos à Deus, sofrem para sempre.
Poderia sim, orar em silêncio, sozinha na minha dor maior e não postar numa rede social, mas faço isso porque sei que teve muitos amigos e conhecidos que se lembrarem dele com um sorriso, uma oração, estarão ajudando-o a viver na luz da saudade.
Sendo assim, e dito posto, ofereço minhas orações, minhas Bênçãos de mãe, meu carinho de irmã da eternidade ao meu filho Beto neste dia 26 de abril de 2013, inesquecível como marca de um Adeus.

Bom domingo de isolamento social...


sábado, 25 de abril de 2020

Um Dia de Cada Vez Postagem 888


                Um dia de cada vez
Para quem me conhece sabe que eu sou “quase” bipolar, se é que este conceito existe.
Tenho dias leves e outros pesadíssimos, mas vou levando ao longo desses 73 anos; muitos deles, a bem da verdade, com suporte médico. Não sei como, mas eu consegui.
Quando preciso enfrentar uma situação que me causa raiva ou dor, ou as duas coisas, a minha alma esperneia feito criança durante um tempo até que eu canse e abra os olhos para a realidade, e eu sinta que estou diante de uma parede de pedras enormes irremovíveis e nada posso fazer diante da situação que se me apresenta.
Dai me sento diante dela e vou encarando a realidade e digerindo cada pedaço amargo da situação que se apresenta insolúvel, até me aquietar e “aceitar”. E isso leva um tempo variável.
Pois bem; Estou há quase dois meses diante dessa parede que foi se erguendo ao longo dos dias e agora está se abrindo uma fresta aos poucos, mas apenas consigo ver diante de mim um nevoeiro espesso, sombrio e úmido. 
Nada de luz, horizonte, céu azul e ou arco íris, nada! 
Mas pelo menos ainda estou respirando o ar gelado que vem de fora.
Então deduzi que os meus passos estão, e terão de continuar sendo, somente dentro dos 50m² em que eu moro, divididos em 5 peças, três janelas, um vitrô, uma porta de entrada, três interiores, uma divisória sanfonada e uma varanda de meio metro.
Resumindo: uma gaiola de ouro. Eu não posso e não devo reclamar, mas será sempre uma gaiola.
O impedimento de sair, passear, andar por ai sem lenço, sem documento e máscara, visitar, ser visitada e tudo mais foram riscados da minha vida para sempre.
Esta é a simples constatação que eu chego. Não há o que espernear, só aceitar sem reclamar.
“Mas sempre poderia ser pior”, me dirão vocês que não estão sozinhos e são jovens, mas também poderia ser diferente, se eu estivesse pelo menos numa casa com mais pessoas... 
Eu respondo de forma “malcriada”. 
Resumindo:
Sem planos de sair daqui, porque sei que será impossível, não me iludo mais. Vou viver o dia e a noite como se apresentarem e sem reclamações, eu prometo; apenas vou viver até que a luz se apague.
Mas tudo bem é o que a vida tem a me oferecer e eu me entrego sem luta.

Bom dia de sábado com saúde para todos. ♥

quinta-feira, 16 de abril de 2020

Pelos Caminhos que Desconhecemos

                    

                        Pelos Caminhos que Desconhecemos

Duas criaturas de Deus, um dia se encontraram numa encruzilhada da Vida.
Uma vinha de muito longe, a outra era dali mesmo, da redondeza.
Aproveitando a sombra de um arbusto deram-se conta uma da presença da outra e a conversa foi inevitável.
Uma era falante, segura de si e foi logo contando que viera de muito longe, que adorava viajar e sair pelo mundo, mas estava muito decepcionada com o que havia visto até ali, e olha que já havia atravessado mais da metade do mundo.
A outra não se contendo indagou o porquê de tanta decepção, e a primeira explicou que pensava que o mundo, o planeta Terra, era bonito, mas não era.
A segunda indignada, e sem se conter, contestou dizendo que o mundo era lindo, que era colorido e que as pessoas eram boas.
Mas a primeira logo rebateu um tanto alterada, e foi dizendo que bem se via que ela só conhecia até onde a sombra alcançava, naquele canto onde elas estavam.
Pois olha só, retrucou do seu jeito calmo de ser; Não acredito que o resto do mundo, além do que vejo, seja feio, não pode ser. Conte-me então como ele é e como você o viu andando por aí.
Então a primeira, com lágrimas de decepção, em voz baixa foi dizendo que o mundo era cheio de lixo apesar do luxo. Que era cheio de seres humanos egoístas e egocêntricos, que só trabalhavam para ganhar mais e mais dinheiro, poder e status. Que cada vez mais se distanciavam uns dos outros e quando se aproximavam iam por interesses escusos. Que suas indústrias geravam tanto lixo que os oceanos, mares e rios estavam morrendo. Que os veículos de locomoção e as fábricas deixavam o céu cinzento de tanta poluição, difícil até de respirar, e que até havia pessoas, já adultas, que nunca haviam visto um céu azul e a luz do sol. O ar cheira mal tantos sãos os poluentes jogados na atmosfera. O barulho é cada vez mais ensurdecedor, tanto que quase nem se ouve mais os passarinhos e as águas dos rios que fogem cobertos de espuma. O mundo está morrendo pouco a pouco.
Por um tempo ambas ficaram em silêncio e pensativos;
Será que havia algo que pudessem fazer para mudar este quadro?
Logo a primeira voltou a falar que não podia entender, como pessoas tão inteligentes, já que a tecnologia provava isso, não percebiam que estavam destruindo o ambiente que haviam escolhido para viver, no que a segunda redarguiu em lágrimas, que estava desencantada com o que acabava de ouvir; achava até que mais valeria não ter saído de casa para ouvir tal coisa, ela que também sonhava em um dia sair por ai...
Ambas choraram de tristeza dividindo suas dores e decepção.
E por ali ficaram até o anoitecer. Dormiram.
Ao acordar a primeira percebeu que havia dormido um bom tempo, pois fazia frio e o inverno já ia alto. Olhou para o lado e percebeu que a segunda ainda dormia profundamente enrolada no que lhe pareceu um cobertor. Sem querer acordá-la saiu tão silenciosa quanto chegou, mas não foi longe ficou ali perto pensando no que fazer para mudar as coisas. Precisava fazer algo, só reclamar, criticar e continuar com o mesmo comportamento não ajudaria em nada. Aguardou um pouco mais, aproveitando um raio de sol pálido que se infiltrava no vão de pedra em que se encontrava, quando teve uma ideia brilhante. Imediatamente entrou em contato telepático com sua família espalhada pelos cantos do mundo e contou seu plano. Iriam se infiltrar nas grandes metrópoles, sufocar sem causar muitos danos, o suficiente para assustar, só para sentirem na pele o que o Planeta Terra está sentindo sufocado. Obrigá-los a se isolarem em seus lares para repensar e resignificar seus valores, e não pode ser por um tempo muito curto.
É preciso incomodar para sentir o mal estar mesmo.
Juntar as famílias e fazê-los conviver mais intimamente obrigando-os a se olharem nos olhos, a aprender seus gostos, observar e conviver com suas idiossincrasias. Precisarão prestar atenção nos velhos, eles é que construíram o que eles agora usufruem e muitos são jogados de lado. Olhar melhor aqueles que os servem e limpam sua sujeira, valorizando o seu trabalho.
Precisam sentir de verdade a presença uns dos outros cobrindo suas necessidades sempre que for preciso trocando favores e gentilezas, aprender a dividir o pão e fazer caridade.
Precisam aprender a servir e não só serem servidos achando que o dinheiro compra tudo. Não compra, é uma doce ilusão.
Vai ser necessário aprender que têm horas que o dinheiro não serve para nada, pois não há o que comprar e a vida não têm preço e nem dinheiro que pague.
Só os avarentos guardarão o dinheiro com prazer.
Os humanos precisam sentir na pele a febre das queimadas e a sede dos mananciais ressecados pelo desiquilíbrio e maus tratos pela natureza.
É preciso acordar para o sentido da vida e ver como a felicidade só existe de verdade quando ela é dividida e espalhada, só assim voltará multiplicada.
É preciso acordar para o sentido da vida. Será um período longo, mas necessário para que o Planeta se recupere dos maus tratos e a Natureza ressuscite.
Não vejo outra saída, infelizmente.
Acabou de enviar a mensagem por via telepática, se desconectou, pegou a mochila que descansava ao lado, calçou a bota de caminhada, surrada e empoeirada pelo uso, colocou o chapéu em forma de coroa e retomou o caminho.

Logo adiante uma borboleta azul lhe desejou boa viagem e sucesso na empreitada.

sábado, 4 de abril de 2020

Por detrás das Máscaras


                          Por detrás das Máscaras
O sábado pré-aleluia amanheceu com sol radiante; mas só por alguns minutos, quando foi encoberto por doces nuvens de algodão rosa-azuladas que em seguida, por sua vez foram dissipadas deixando o cenário granulado em azul e branco.
Conseguir mudar o cenário Celeste todos os dias, o tempo todo é realmente para O forte.
O ar é fresco e quase frio. Outono bombando por essas bandas.
A Pandemia ainda mantém as pessoas engaioladas em suas casas enquanto o vírus coroado, se sentindo um rei, transita livre, leve e solto sob a mira de metralhadoras mentais e “alquingel”.
Nada está bem neste vendaval por detrás dessas máscaras de griffe, importadas ou caseiras.
Não sei se quero paz ou guerra de travesseiros de pena, mas descobri que tem “cabelo de anjo” na minha sopa.
O silêncio ao meu redor agride os meus ouvidos e os barulhos, desconfio, vêm do interior de uma concha.
Não sei de mais nada, mas uma coisa eu sei; dormi e acordei num outro Planeta que não reconheço.
Ao meu redor tudo está quieto demais, parece que todos dormem para não ver o que se passa, ou não passa...  

Melhor mesmo, eu acho...


sexta-feira, 27 de março de 2020

Lã para o Inverno

                  Lã para o Inverno
Amanheceu um belíssimo dia de outono. 
A temperatura perfeita; nem frio e nem calor. 
Nada de suor escorrendo e nem queixo batendo, tudo dentro do equilíbrio.
Era bem cedo ainda, tinha acabado de amanhecer e o sol nascer. Sentei-me diante da minha xícara de café para acabar de acordar quando a criatura peluda parou à minha frente e me perguntou assim à queima-roupa se eu sabia fazer tricô. E essa é uma pergunta que se faça antes das dez da manhã?
Antes de eu tomar meio litro de café não sei nem quem eu sou.
- Ãh?
- Eu vou perguntar de novo: Você algum dia fez tricô nessa longa estrada da vida?
- Bom dia, como vai você; e os parentes estão bem de saúde?
-Já vi que não está dando ainda, vou lá dentro e já volto, espero uma resposta coerente; é muito importante.
O que fazer quando duas criaturas de fuso-horários diferentes coabitam no mesmo espaço exíguo?
Quando ia pegar meu jornal, já saboreando a segunda xícara de café com leite ele apareceu de novo. Parou diante de mim querendo saber se eu fiz tricô na vida. Ele é altamente insistente.
- Bem, eu já fiz tricô e tenho até um certificado que me garante, mas eu não me garanto nada fazendo tricô. O cursinho durou seis meses e enquanto as amigas fizeram dez peças em vários pontos, eu desmanchei o meu trabalho dez vezes, mas finalmente consegui entregar no dia da formatura um casaquinho cor turquesa, que doei na primeira oportunidade para não ficar olhando para ele e me lembrar do período de tortura.
- Tudo bem, não duvido de uma só de suas palavras, imagino a cena e acho melhor trocar de assunto para não chorarmos juntos. O que eu quero mesmo é aprender a fazer tricô.
- Continua querendo mesmo depois desse meu sincero depoimento?
- Claro! Ouvi dizer que tricô e bicicleta nunca mais se esquece.
- Primeiro me diga qual é a novidade do momento.
- É que ouvi dizer que estamos no meio do outono e daqui a menos de dois meses entraremos no inverno e com ele o frio.
- O frio chega antes do inverno... aff,  que novidade...
- Sim, eu também ouvi dizer, daí pensei numa oportunidade de ganhar dinheiro fazendo blusas de lã...
Demorei um pouco, confesso, a entrar no clima.
Como em tempos de Pandemia a gente precisa inventar coisa, achei até uma boa ideia, fazer um cachecol para o inverno. E lá fui eu buscar as lãs e as agulhas, afinal não custava nada e não consigo negar nada à criatura peluda que divide a moradia comigo, sem falar que ando muito emotiva e precisando fazer alguma coisa par me ocupar...
Às cinco horas da tarde ainda estávamos, cada um com um par de agulhas nas mãos e enrolados entre fios de lã, contando: “um tricô, um meia, um tricô, um meia”, quando o interfone tocou e era o porteiro perguntando se podia subir com o casal de Carneiros que estavam entregando...
- Otávio!!!! Venha cá que quero te matar bem devagarinho...

Desde àquela hora ele está mergulhado nos lençóis, dormindo como um anjo e não está para ninguém...
Melhor eu voltar ao cachecol antes que eu faça um macarrão com essa lã e um molho peludo; um tricô, um meia, um tricô, um...

27.03.2020

quarta-feira, 25 de março de 2020

Observatório

                                         Observando
Daqui do observatório em que me encontro, me dei conta de que só os privilegiados estão em “reclusão social”.
Até o nome é Chic e bonito: “Reclusão Social”. Sim, porque o pessoal da periferia, os invisíveis, continuam morando num quartinho com vinte pessoas dividindo cinco pães e três peixes todos os dias quando conseguem trabalhar ou fazer um “bico”.
Mas e agora que “precisam” ficar no quartinho que fica entre três mil quartinhos respeitando a “Reclusão Social”?
Brincadeira né? Quem vai dar de comer para eles se não podem trabalhar? Os que passam de carro escondidos atrás do vidro fumê, vindo do supermercado com os porta-malas cheio? Os políticos que reclamam do “mísero salário” de 42 mil?
Infelizmente ninguém. 
-“Quem mandou ser pobre”?- Dirão os que estão na boa, respeitando a “Reclusão Social” e reclamando das músicas que o vizinho ouve, do barulho das crianças dentro de casa etc. 
Tudo os incomoda, enquanto eles assistem o Netflix tomando Cerveja (Corona ? ;)) e comendo brigadeiro na panela.
Ninguém! Nem os patrões, pois estão em “reclusão social” também fazendo contas o tempo todo, só avaliando os prejuízos e calculando as prioridades, onde os empregados estarão de fora, provavelmente; 
E para quando todo esse pesadelo passar e a gente acordar para uma realidade que não terá mais nada com o que era antes da Pandemia.
E os moradores de rua que tanto “comprometem” o visual da Cidade, tão limpa, bonita e florida?
Estes também estão TODOS JUNTOS recolhidos num pavilhão, onde no Carnaval, todos cantavam e dançavam como se não houvesse amanhã, mas infelizmente para os que não morrem durante a noite, sempre haverá um amanhã trazendo as consequências do ontem.
 “Nada é como foi há um segundo”.♪♫♪♫
É como se um tsunami, um terremoto e uma avalanche de lama acontecesse na mesma semana para todos ao mesmo tempo, inviabilizando qualquer coisa que não seja sobreviver como der; onde um pedaço de pão, um copo de água potável, um banho decente e álcool para uma higiene melhor, se tornou um luxo para poucos, só para nós que estamos em “Reclusão Social”.
E isso tudo, para os pouco afeitos à Espiritualidade, aos mais apegados, materialistas e calculistas, é um momento totalmente sem chão, estão suspensos no ar, volitando como mariposas ao redor da lâmpada; até quando meudeus? 
Quem sabe?

E agora, quem poderá ajudar?

Infelizmente o Chapolim Colorado já se aposentou...